Para Além de um Sentimento


Na palavra
E no verbo
No tempo que não se vai
No inteiro que não se parte
No afeto que se contrai

A ti, minha emoção dedico
Livre de qualquer formalidade
Presa no meu intenso desejo


E que a mão que toca a outra
Penetrando o tempo e o espaço
Possa também me abraçar
Seus olhos no espelho
E na minha pele gravados


A cada passo incerto a te procurar
Minha alma bem sabe aonde te encontrar
Bem perto, ou bem longe
Em algum lugar
Bem aqui... No meu peito
Escondido na minha lembrança
Corre o meu amor
A ti, para sempre, alcançar

Mulher Aranha




Tal qual aranha, teço
Saio, subo, percorro,
Pendurada em fios, minha alma vejo
Amarrada em voltas
Faço o laço, no abraço

Nos entremeios de mim,
No lampejo
Em todos os fios de minha vida, percorro
Destruo, descarto, enrosco
Desfazendo o feito.

Lanço , jogo e crio
Nas teias do meu caminho
Teço o fio
Teço a trama
Sem drama

Me enredo, e amanheço
Nos meus pés,sinto a seda,
Nos enlaces,
Nos lençóis,
No arremesso.




No sol que abraça


Mesmo que a rosa
Morra em botão
A vida continua...

No sol que me abraça
Na música que enlaça
Para além da vidraça
No muito, ou pouco, que se faça

Lá ela está, a vida, sem medida,
Sem atrasos,
A nos esperar.


No minuto que já morreu
Mesmo com a ausência silente
Dos que amamos um dia
Seguimos ainda
Pelo mesmo, mas todo dia renovado,
Caminho antes percorrido.



Voltas do Tempo


As tranças do meu cabelo
Estão guardadas no armário
Envolvidas em papel de seda
Juntamente com minha infância

Naquelas tardes onde as flores
Exalavam mais o seu perfume
E onde o sol teimava em não dormir
Guardo todas minhas lembranças

Chinelos nos pés
Conversas pueris
Liberdade solta
Paixões febris

Nas voltas do meu tempo
Todo tempo não mais volta
Juro, às vezes, que ele ainda não passou
Por mais que o tenha vigiado
Criança que não soube crescer
Com seus doces mistérios, fez o relógio derreter

Retrato em Preto e Branco


A uma amiga poeta


Contrariando o seu curto recado
Persisto em não te abandonar
Sentada ao meio fio, junto ao sereno
A espera de tudo recomeçar

Insisto em não ter fim
Em não deixar tudo acabar
Escolho o infinito, silente
O peso, sufocante, da pata de elefante

Desejando mais que uma noite
Quero, de volta, uma manhã a me abraçar
Depois das curvas tênues do rosto
Onde as lágrimas, cansadas, se deixam secar

Ainda seguro o retrato em preto e branco
E vejo o colorido vivo das roupas que vesti
Minha memória, desbotada, mas fiel, não me trai
Vejo todos intactos, ainda, sorrindo, alí...

Alma Cigana


Próximo da grande fogueira
Baila um vulto de mulher
Desfazendo-se das misérias do cotidiano
Na neblina densa de todo mistério
Seduzida pela breve liberdade
De uma alquimia de rara beleza...
Transformando poeira em poesia!...

Pés descalços sobre a terra
Prontos para a próxima partida...
Escolhas temidas e tristes abandonos
Se escondem no rápido movimento de seu corpo.

Sob o olhar da lua em chamas
Todo ritual a fecunda
E os quatro elementos da natureza se fundem
Numa realidade própria
De uma alma cigana.

Faíscas


Pela imensidão azul

A que me proponho

Só uma certeza é constante

Meus muitos brilhos

Pela vida diária ofuscados

Deixam faíscas de rastro

Para que eu mesma

Num adiantado dia

Venha com fome a procurá-los.

De olhos Fechados


Sou muito mais do que o antes e o depois
Perto estou, quando ao longe me encontro
Aborreço e esqueço
Nos intervalos do meu ser


Não desespero; espero
Nos compassos da razão
Repito, erro e crio
Nas cirandas do meu coração


Procuro, quando já encontrei
Sinto e desminto
Mentiras verdadeiras


Sou inteira
Porque me deixo dividir
Amanheço
Pois que me permito anoitecer
Vejo melhor
Quando meus olhos,
Amanhecidos de encantos
Se fecham.

Enquanto


Doce encanto

Serei portanto

Quando tu me olhares

E enfim me notares

Me verás na tela em branco

Me verás em todos os cantos

Com sorrisos e com prantos

Serei sua, até e enquanto

Nosso amor for sagaz e tanto

E Depois ... Quando?

Nem eu...Nem tu...

Nada saberemos...

Do desencanto.

Poesia com os braços abertos


Ser livre, mera ilusão
Até a liberdade em excesso
Pode se tornar prisão
Livre mesmo é o pássaro
Que de tão incerto destino
Abre suas asas
Engole o ar...
E se deixa abraçar pelo vento!

Primavera



É chegada a hora
Onde a poda se faz necessária
De galhos que ontem floresceram
E Hoje, maduros, se deixarem morrer...

É chegado o tempo
Da pequenina semente germinada
Em épocas passadas, solta e abandonada
Romper a terra, aflita, em busca do sol...

De mãos, outrora, contidas e atadas
Em busca de saciar a fome
Prepararem, seguras, a próxima refeição...

Pois que, a primavera já nos surpreende
Com um corte silente e profundo
Em cada esperançoso coração.

À procura de novos sonhos,
Aproxima-se a furiosa correnteza
Que lava todas as angústias enternecidas
E faz nascer uma flor em cada dedo da mão.

Você



Existem pessoas
Que de tanto amadas
Ficam tatuadas em nosso peito


Existem saudades
Que de tantas vontades
Ficam, para sempre, derramadas em nosso leito


Existem sentimentos
Que de tanto vividos e absorvidos
Ficam gravados em nossa pele


Existe Você
Que de tão linda presença
Emoldura a minha história


E bem antes do amanhecer
Sua sombra, como um sol
De tão iluminada
Já me aquece.

Gradiva


E naquele andar suave
Estavam suas doces lembranças
De seu amor pueril
Numa remota criança

E sob aquele infinito olhar
Dias frios e findos
Ao lado de alguém
Deixados na distância

Perdidos na memória
De quem um dia soube amar
Sem saber...
Existentes nos inquietantes
Momentos de prazer

Para além do tempo
Um amor transportado
Muito além de Pompéia
Num encontro marcado

Para além de um abraço
Sentimentos guardados
E sob seus pés descalços
Um amor no passado
Entre as cinzas de sua memória
Seus destinos entrelaçados.

Decidida


Mesmo sem ter aonde ir

Ela partiu

Mesmo sem ter o que vestir

Se despiu de velhos preconceitos

Mesmo sem ter o que procurar

Saiu, decidida, e em busca

Mesmo sem entender de notas musicais

Compôs e dançou sua linda e doce canção

Decidiu não mais parar

E se pôs a andar, e andar

Pois que, quem nunca se perde

Jamais se encontra.

Intuição


Os olhos muitas vezes
Não conseguem ver
Qual lado é o certo
Quem tem a razão.


Mas quem se aprofunda
Em seus anseios e angústias
Consegue sentir e perceber
O enlace da intuição.


Tal qual uma bússola
Orienta, norteia e guia
Colocando potentes faróis
Iluminando a densa escuridão.


Cada qual tem o seu jeito
De descobrir o caminho
Para mais rápido chegar
Ao ápice dessa exploração.


Quem consegue láchegar
Descobre um grande tesouro
Com brilho e valor incalculáveis
E que ninguém , nunca, consegue roubar.
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