Espera


Junto a parede ela repousa,
Sonhos de uma estranha sensação

Corredores, vãos e uma luz vinda da janela
Deixando-a num constante profusão

Com ímpeto seu corpo atravessa
Com determinação a arremessa
Pelo inquietante e branco silêncio
As flores vivas estão cá dentro...
Na pequena sala de espera

Abri a porta para um imenso jardim
Com o desejo de semear e colher
Ah! Como é grandiosa a responsabilidade
De fazer todo o campo florescer!

Em cada olhar, o infinito



Vejo o sol despontando nos seus olhos
Duas contas de cristais a me cegar
Com a luz que se reflete em velhas canções
Em doces instantes que transbordam afeições


O sentimento nosso de cada dia
Mergulhado em pequenas porções
De cada olhar, o mais bonito
De todo o amor, o mais polido


E o tempo que me transpassa
Alcança com suas mãos trêmulas
Em cada pequeno gesto, o infinito.

Varais de Lembranças



Pendurei minhas lembranças no varal
Resolvi que delas nada mais posso tirar
Delas ninguém, sequer, saberá
Se as retiro, sem querer, ainda úmidas
Em nenhum armário posso guardar

Por isto, deixo-as ao sol encandecente
Adormecidas em seus longos braços
Secando todas as mágoas e mazelas
Como folhas secas, e em estilhaços

Frescas e muito mais leves
Se tornam as lembranças
Que ao sol, adormecidas, secaram
Aonde os ventos se debruçaram
Perfumando sua pele há muito enrugada

Seu destino, então, já previsto
Se põe em passos largos
Ir de encontro, procurando um lugar
Onde possam, enfim, descansar
Junto a outros sentimentos guardados.

Amarelo


Amarelo

Amar - elos

Há mar entre os elos

Há amor entre os olhos

Amarelos...

Amarras e elos

Amar

Amarelos

Toque de Lavanda


Longe, bem longe da infância
Há um lugar onde caminhos nos seduzem
Bem perto de uma certa sabedoria
Onde apenas sentimentos existem

No porto onde se prediz o futuro
Juntos todos os encontros são felizes
Na sempre condição de ser única
Centrada no meio da multidão

Como um pétala solta da flor
Voando por terras nunca vistas
Numa ânsia de ir mais longe
Deixando rastros num caminho sem volta

E no ar...
Um suave perfume de lavanda
Indo além, onde meus olhos não conseguem ver
No infinito de cor lilás
Onde me deixo transcender

Cheiro de Alecrim



Já sonhei várias vidas
Também vivi muitos sonhos
E com certeza concisa
Concluo que,
Como diz a bela música
"Viver é melhor que sonhar"

Nos sonhos, as árvores são azuis
E se misturam com o céu
Perto dos pássaros que dizem segredos
Longe das águas que não mostram imagens

E esse cheiro festivo do alecrim
Tira-me do adormecimento em que me encontro
As palavras se calam
Pois, a vida e o silêncio se confundem...

E , agora, já desperta
Onde os sonhos e a vida se fundem
Posso compreender melhor
O mistério contido em todo voar.

Alma Cigana


Próximo da grande fogueira
Baila um vulto de mulher
Desfazendo-se das misérias do cotidiano
Na neblina densa de todo mistério
Seduzida pela breve liberdade
De uma alquimia de rara beleza...
Transformando poeira em poesia!...

Pés descalços sobre a terra
Prontos para a próxima partida...
Escolhas temidas e tristes abandonos
Se escondem no rápido movimento de seu corpo.

Sob o olhar da lua em chamas
Todo ritual a fecunda
E os quatro elementos da natureza se fundem
Numa realidade própria
De uma alma cigana.

A Menina e o Tempo


Lá aonde se espera a vida
De onde as feridas são indolores
A menina aprisionada no tempo
Faz soprar, nos céus, os ventos da mudança

Enquanto as árvores não crescem
E ainda pulsa a cor da esperança
Tenha, ao toque das mãos, ainda
A maciez dos dias amanhecidos

Quando as crianças choram
Alguém as olha por detrás das nuvens
Protegendo-as das lágrimas que deixam marcas
Que são logo transformadas em chuva

E que de chuva encharca
A terra que ainda não foi plantada
Brotam, mesmo que silentes,
Nos olhos de quem ainda não cresceu
Ao viver, se desejando ou sentindo
O sol que ainda vai nascer

Rito de Passagem


Foto: René Magritte

Vai infância,
Em toda sua ilusória completude
Deixa-se ir com o tempo
Na quietude das tardes
Nas vozes dos antigos amigos
Nos brinquedos deixados
Na mão que te orienta a crescer

Vai tempo de festa
Onde a adolescência te chama
Onde o primeiro amor te espera
Na claridade dos lindos dias
Na páginas do caderno da escola
Rabiscos e afirmações
De um adulto que deseja nascer

Vai e não olha para trás
Relembra apenas o que se foi,
No passado que te constitui
Nos momentos que te formaram
No que o sentimento hoje flui

Nada mais te prende
A não ser as remotas lembranças
E este olhar para o que ainda não existe
Um olhar para o que está no futuro
Mas , que nem com todo esforço e desejo
Consegues ver...

Vai, mas, não apresses o passo
Desfrute do que te cerca,
Do que te faz crescer,
Do que te emociona
No que a vida te oferecer.

A Tradução de um Silêncio


Foto: René Magritte


Guiada por uma estrela
Na noite incandescente
Cores, aromas e sensações
Trazidas por imagens inconscientes

Não somos mais os mesmos
Somos um pouco mais
No minuto atrasado
Do tempo que chega

A lógica sem sentido
De velhas pulsações
Levitando sobre a página do livro aberto
à deriva...
Na torrente de emoções.

Estou no que digo, mas ,
Principalmente no que deixo de dizer
Estou no hiato
Na hiância
Nos intervalos
Sobre a ponte entre duas margens inexistentes.

O Tudo e o Nada
Na solidão dos mosteiros
Na tradução do silêncio.


Decidida


Mesmo sem ter aonde ir

Ela partiu...

Da boca, engolidas palavras

Formavam um Adeus

Mesmo sem ter o que vestir

Se despiu de velhos preconceitos

Mesmo sem ter o que procurar

Saiu, decidida, e em busca

Sem entender de notas musicais


Compôs e dançou sua linda e doce canção

Decidiu não mais parar...

E na longa estrada

Se pôs a andar, e andar

Pois que, quem nunca se perde

Jamais se encontra.

Colar de Pérolas


Um arredio colar de pérolas se desfez

Várias delas se espalharam

Sabendo, cada qual , o seu destino

Correndo apressadas para o fundo do oceano

Feito um labirinto percorrido e desvendado

Todo o mar, ansioso, as aguardava

Como amantes distantes que não se vêem,

Respirando o amor que deles exalam

Apenas sonham um com o outro

E no reencontro tardio

Soluçam felicidade...

Sensível



Hoje, percebo quem fui
Mesmo que certezas me faltem
A vida oferece a cada instante
Uma nova e rápida estrela cadente
Para que novos desejos sejam desejados
e logo transformados em doce esperança

Existe, dentro de mim
Um lugar silente e resguardado
De todo barulho e bagunça deste mundo
Lá , eu flutuo na música
E tenho a suavidade de uma poesia

Vou correndo encontrar
Assim que as portas se abrem
A força que habita em toda sensibilidade
Pois, engana-se que apenas olha
E em verdade não vê:
Ser sensível , nada em absoluto,
Significa ser frágil.

Alma Mineira



Minha alma é mineira
Farejadora de ouro e poesia
Aprendiz de luz e pérolas
Garimpeira de rubis, esmeraldas e jades
Num brilho de ofuscar
Nas Minas do sempre ser
Tem sotaque, tem mesmices
Tem cheiro de pão fresco
e andar nas ruas de barro, sempre abrindo porteiras
Minha alma é mineira
É simples, é ritmada
como o cantar das violas
É o escultor e a escultura
É o artista e o seu feito
É o pintor e sua pintura
Minha alma é mineira
É a obra inacabada....

Feliz Tempo Novo!


Observo, encostada na soleira da porta
Toda a vida apressada passar
Lá vejo cheiros e pessoas
Amigos, amores, lembranças
Todos passam e vão-se embora
É necessário ir!
O que se há de fazer?

Junto deles passam os anos
Inquietudes de adolescente
Dúvidas da juventude
Algodão doce, irresponsabilidade
Passam apressados sem saber

A sabedoria está em aceitar o fim
Talvez seja a mais árdua e pesada...
Mas depois do fim
Um novo começo, sempre!

Lá vem a brisa de um novo tempo
Despontando no horizonte
Já posso sentir seu frescor
Tocando meus cabelos

Junto a mim somente o agora
Abro os braços e deixo escapar
Livre como um pássaro, todo o passado, outrora
Vão-se sonhos abandonados,
Objetos quebrados, papéis rasgados
Nada mais é preciso ficar

Tudo passa e vai embora
O que se há de fazer?
Assisto a tudo e posso crer
O Tempo sabe muito mais do que todos nós
Para que desobedecer?
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