Primeiros Passos



Vincent Van Gogh - First Steps

Sobre a ponte amarela
Descansa meus sonhos
Nos primeiros passos
Os mais secretos desejos

Perto ou longe
Na terra a se arar
Sementes já brotam
Manifestando a ânsia de viver

Meus versos tão pessoais nascem aqui
No solo da vida da qual me inseri
Minhas palavras
São os rastros que deixo

Delas partem o sentimento puro
Delas nascem o giro do mundo

No sol que me habita
No céu que me amplia
No calor que me alimenta
No afeto que me sustenta




Pés Descalços



Nada oculta-se aos olhos de quem sabe
O saber te leva mais longe
Do que seus próprios pés.
Pois, o que encanta,
E no encontro,
O sábio e o caminhante andam juntos.

Quando os pés duvidam
O saber suporta
Quando os pés duvidam
Abre-se a porta:
Do saber de si
Do saber sobre o outro

Sobre a ponte que me conduz mais além
Pisando o asfalto da decisão
Do poder de escolha
De ir e voltar ,
quando assim desejar,
Apóio meus pés descalços,
Sem me deixar parar.

Construção



Sou muito mais do que o antes
E menos ainda do que o depois
Sou o que já se forma
O que já se transforma
Sem formas
Sou o que soa
Sou o que se reforma
Sou Pessoa

Da palavra que nasce
Com o próprio jeito
Inovando sempre a cópia
Sou sujeito

Sujeita a tempestades
Sujeita a calmarias
Ora sou inteira
Ora sou metades

Singular ou plural
Às vezes sou o verbo
O que conjuga
O que consente
O que há, dentro ou fora
Passado e presente
Sou o que sente.

Clarice



Sempre amei Clarice
Desde o primeiro momento em que a vi
Sua foto estampada num livro de literatura juvenil
Onde fomos apresentadas

Seu olhar lânguido me conquistou
Suas palavras vieram calar as minhas, por momentos
Onde , como num reflexo no espelho,
Falavam por mim

Descobri que muita gente se cala ao ouví-la
Pois, seu semblante nos emudece
Nos entorpece

Aqui, depois, de muito tempo passado,
Com a poesia que agora me faz falar
Cada vez mais perto de um Coração Selvagem
Utilizando as palavras, talvez as mesmas,
Relendo os sentimentos que brotam de cada texto seu.

Toda claridade é pouca perto de Clarice
Toda luminosidade que a contempla
Cega muitos olhos aflitos...

Para compreendê-la, enfim,
aprendendo a viver
Bastam apenas perguntas
Sem nenhuma ínfima resposta




Luz e Sombra


Foto: La Promesse - Renê Magritte

Na claridade vejo meus poros
Na sombra, minhas ilusões
Figura e fundo...
Casca e Miolo...

Na luz vejo meus olhos
No escuro, meus fantasmas
Sem me distorcer em vultos
Enxergo melhor em luzes apagadas

Na solidão, o espelho é visível
Repentina, toda claridade me cega
O ouro em pó se derramou
Percorrendo os vãos da escada
Quem sobe, sem medos,
Enfrentando seu próprio breu
Reluz, cintilante, adentro madrugada.

Libélula



Junto à porta que dá passagem ao passado
Encontrei-te esperando por mim
Nem tão lá,
Nem tão aqui,
Mas, na ausência implícita

Nos cortes inesperados,
Na liberdade abraçada
Nos entrelaços da vida

Na fonte que nos oferece água limpa
Está a esperança de dias sem saudades
Onde para o amor
Não existem dores

E na liberta sensação do encontro
Deixar-se embalar por ventos interiores
Devagar sem destino
Em terras jamais vistas

Mansidão



Quando as vozes se calam
Quando a luz externa se apaga
Ouço a música do silêncio

Posso tocar o sol que na noite existe
Posso ouvir o ruído de uma flor que se abre

Não se vendem ilusões
Elas se criam como raízes
Dentro de nós

Livre somos para escolher:
Adormecer ou
Acordar...

Diante do espelho ninguém é normal e belo
As aparências entorpecem todos os sentidos

Juntos somos, ainda , sozinhos
Pois, cada dedo da mesma mão,
sempre é diferente dos demais

Cada poro da pele esconde
Diferentes estórias
No trânsito de imagens
Que chegam e partem
Em cada memória.


No Caminho

Em terra de horizontes largos
Sinto a vida, em mim, ressuscitar
Incansável, o sol salta no céu,
Escondendo sua timidez
Sufocando estrelas...
Escolhendo sempre o brilho e o reviver
E para quem, tudo é novo, sempre

Andar é difícil
Amar é obscuro
Mas vendo a lua deserta
Que ilumina as ruas, incerta
Meus passos seguem adiante

E fica como uma poesia sem fim
O caminho que não se encerra
Sem sentidos...
Sem rimas...
Segue apenas...
No ar que se inspira
Inundado de livres sentimentos
Colhendo as flores enquanto ainda estão belas




Entre as Margens

Foto: Rio Velho por Nelson Afonso

Gosto do silêncio
Porque ouço minhas próprias vozes

Gosto da escuridão
Porque nela posso ver meus próprios fantasmas

Gosto do Hiato
Onde surgem minhas próprias fantasias

Gosto de paredes brancas
Onde projeto o meu próprio filme

É no silêncio
No Escuro
No Hiato
Onde nasço
Onde surjo
Onde existo

Porque são entre as margens que os rios correm
São entre os parênteses que reside o significado
São entre as montanhas que existem os ecos
São entre os medos que sobrevivem os sonhos



Singular


Cada caminho, por vezes, parece solitário,
Visto que cada caminho é UM
É estreito, pois somente cabe um passo,
De cada vez...

A solidão necessária do existir
A solidão do ser único
Resnascer a cada instante
E saber-se singular

A dor de existir-se
De saber-se
De ser criança e adulto em um só ser
Aproximar a palavra ao pensamento,
Aproximar a escrita ao sentir

Um caminho de um só
Ser só
Só ser
Como a flor não pode esconder sua cor
Nem o sol esconder seu brilho


Varanda

Moça na Janela - Salvador Dalí


Debruçada sobre a pedra
Que sustenta a imensa varanda
Vejo nuvens de lembranças
Onde ao amanhecer
Formam a densa neblina

Paisagens se vão
Carregadas pelos ventos fortes
Que o tempo nos impõe...
Corredores de imagens
Que vida afora
Se formam como quadros na parede

Folhas desgarradas formam outras árvores
Reaproveitando tudo
O que, antes, já foi criado

Depois da ventania
Encontro sua mão
E o que fica a partir de então,
É o mistério alegre e triste
De quem chega e quem parte.








Girassol



De repente gira o sol
Levando-me junto, mundo afora
O rosto virado para a luz
Contempla a cor e o calor
Onde alegrias perfuram o tempo


Giram as vidas sem saber
Do infortúnio ou da felicidade
No espaço curto de poder
Controlar algum compasso

Giram em torno de mim
A margem de qualquer contratempo
Coragens que perseguem o fim
Em suas destemidas voltas

Rodopia em busca do ouro
Em linda dança dourada afora
Não deixe, nunca, os sonhos partirem
Euforia desenvolta
Companheira do agora

Você



Aos Namorados

Existem pessoas
Que de tanto amadas
Ficam tatuadas em nosso peito

Existem saudades
Que de tantas vontades
Ficam, para sempre,
Derramadas em nosso leito

Existem sentimentos
Que de tanto vividos e absorvidos
Ficam gravados como sinal em nossa pele

Existe Você
Que de tão linda presença
Emoldura a minha história

E bem antes do amanhecer
Sua sombra, como um sol que habita
De tão iluminada
Já me aquece.

Gôsto de Mel



Há de ouvir
O incessável cantos de pássaros
Que nunca voam sobre o mesmo campo
Eternizados no céu,
Como em um quadro de molduras douradas.

Há de ver
Por todo caminho,
Pétalas marfins espalhadas
Onde, por todas a manhãs, com fascínio, caminho.

Pela fresca estação, todo o encanto fulgaz me seduz
Ao dia, há cores, que pintam, sem cerimônia, minha tez
À noite, só os sonhos, com gôsto de mel, posso ter

Fugitivos


Seus contornos me rodeiam
Num espécie de raro torpor
Jorram palavras não ditas
Desejando a frase quase maldita

Em ti, com tonturas, encontro
Algo similar que temia perder
Te encontro, sem nitidez, antes da minha partida
Sem perceber...

E agora, o que fazer?
Se antes do claro amanhecer
Um amor, bêbado, nos flagrou?

Lá fora, a vida aflita devora
Cada pedaço perdido do desvario
Ofegante respiração entrecortada...
Lembranças, bruscas, fragmentadas...

Uma mera coincidência de amar
No espaço, num instante de olhar
Juntos, medo de perder...
Separados, medo de encontrar...
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