A Menina e o Tempo



Lá aonde se espera a vida
Aonde as feridas são indolores
A menina aprisionada no tempo
Faz soprar, nos céus, os ventos da mudança

Enquanto as árvores não crescem
E ainda pulsa a cor da esperança
Tenha, ao toque das mãos
A maciez dos dias amanhecidos

Quando as crianças choram
Alguém as olha por detrás das nuvens
Protegendo-as das lágrimas que deixam marcas
Que são logo transformadas em chuva

E que de chuva encharca
A terra que ainda não foi plantada
Brotam, mesmo que silentes,
Nos olhos de quem ainda não cresceu
Ao viver, se desejando ou sentindo
O sol que ainda vai brilhar

Quebra-cabeça





Sem pressa,
Fico a juntar as peças do quebra-cabeça
Peças grandes, coloridas
Peças de luto, delicadas
Pequenos fragmentos a formarem
A imagem dedicada ao ontem.

Pedaços de um brilho singular
A representar pessoas,
Situações vividas
Emoções sentidas
Cada qual com sua beleza, seu feitio
Formando quadros nos seus encaixes
E uma imagem que se parece comigo
Olhada, ao longe...

Com Licença para Viver



Enquanto desfaço-me de minhas certezas
Enquanto vou aprendendo a duvidar de meu destino
E apontar rumos incertos
Tal qual uma bailarina despe-se de seus véus
Vou lapidando minha arte de viver

O cheiro da poeira a se levantar
O som da porta a se abrir
Ainda fazem meu coração estremecer
Sinal que a vida habita em mim

Sem pedir licença
A vida se faz e refaz
E ao se olhar no velho espelho
Vê refletida sua inquietação
E faz do tempo seu grande amigo.

Luz e Sombra



Na claridade, vejo meus poros
Na sombra, minhas ilusões
Figura e fundo...
Casca e Miolo...

Na luz vejo meus olhos
No escuro, meus fantasmas
Sem me distorcer em vultos
Enxergo melhor em luzes apagadas

Na solidão, o espelho é visível
Repentina, toda claridade me cega
O ouro em pó se derramou
Percorrendo os vãos da escada
Quem sobe, sem medos,
Enfrentando seu próprio breu
Reluz, cintilante, adentro madrugada.

Varais de Lembranças




Pendurei minhas lembranças no varal

Resolvi que delas nada mais posso tirar
Delas ninguém, sequer, saberá
Se as retiro, sem querer, ainda úmidas
Em nenhum armário posso guardar

Por isto, deixo o sol encandecente
A envolver em seus longos braços
Secando todas as mágoas e mazelas
Como folhas secas em estilhaços

Frescas e muito mais leves
Se tornam as lembranças
Que ao sol, adormecidas, secaram
Onde os ventos se debruçaram
Perfumando sua pele já enrugada

Seu destino, então, já previsto
Se põe em passos largos
Ir de encontro, procurando um lugar
Onde possam, enfim, descansar
Junto a outros sentimentos guardados.

Ilusões


Quisera eu ter menos ilusões,
Mas elas,
Incessantemente,
Me abraçam...
A criança que existe em mim
Está fadada
A jamais crescer.

Infinito



Ao amigo, grande poeta, grande pessoa



E da Tua poesia veio o silêncio...
E das tuas mãos nasceu o espaço em branco...
Da tua afetiva presença surgiu o imenso vazio...

Vida livre na Era de aquário
Assim te vejo, Coração intenso
Há braços* a te esperar...
Grandes pessoas não cabem neste mundo
Precisam sempre ir além...
Infinito


*"Há braços" , uma expressão do querido amigo, ao se despedir...

Feliz Tempo Novo




Observo, encostada na soleira da porta
Toda a vida apressada passar
Lá vejo pessoas, ouço vozes
Amigos, amores, lembranças
Todos passam e vão-se embora
É necessário ir!
O que se há de fazer?

Junto deles passam os anos
Inquietudes de adolescente
Dúvidas da juventude
Algodão doce, irresponsabilidade
Passam apressados sem saber

A sabedoria está em aceitar o fim
Talvez esta seja a mais árdua e pesada...
Mas depois do fim
Um novo começo, sempre!

Lá vem a brisa de um novo tempo
Despontando no horizonte
Já posso sentir seu frescor
Tocando meus cabelos

Junto a mim somente o AGORA
Abro os braços e deixo escapar
Livre como um pássaro, todo o passado, outrora

Vão-se sonhos abandonados,
Objetos quebrados, papéis rasgados
Nada mais é preciso ficar
Tudo passa e vai embora
O que se há de fazer?

Assisto a tudo e posso crer
O Tempo sabe muito mais do que todos nós
Para que desobedecer?

Nas Asas do Tempo




As asas do tempo
Às vezes, atrapalham
O meu próprio vôo...

O Amor somado ao tempo
Às vezes adoece,
E morre multiplicado.

O amor somado à distância;
Cristaliza-se em gotas de lembranças
Eternizadas nos poros da pele.

E da união do amor com o tempo
Nos dias tranquilos
Em dores de parto,
Nasce o filho chamado
Saber.

Feminina



Pela manhã

Desfaço as tranças do cabelo
Que os sonhos da noite teceram

De cara lavada,
Desperta de qualquer ilusão,
Percorro as ruas sinuosas do meu desejo
Seja lá, onde elas já percorreram,
E onde me conduzirão...
Trazendo a realidade da vida para junto de mim.

De pés descalços
Sinto a terra ainda úmida
Que me arranca os ares de menina
Solto das mãos, então, as esperanças cegas do ontem,
Para viver, enfim,
Dentro de cada poro da pele,
Um tempo redescoberto.

Doce


Ao meu filho Davi

A doce música vinda do seu quarto
Transporta-me para um tempo em que sonhei
Via nas nuvens tatuado
Um rosto como o seu, a me olhar

O suave perfume que vem do seu quarto
Toca profundamente em meus anseios
Movimento lento, silente
Intacto e emoldurado
Do eterno instante em que te vi

Amor e sonhos convergidos
Impasse que o destino leu
No calor que sempre emana
Do ventre que te protegeu.

Nas paredes brancas
Sou a protagonista
Do sonho que ontem ousei ter
Passado e presente transpassados
De mãos dadas, vida a fora
Escritos num filho que me faz crescer.

Pólen


Dentro da tarde
Este vento fresco traz
Um pólen que germina em meu rosto
Figuras tácidas de flores audazes

Se caio entre as horas do meu relógio
Contemplando o tempo se despindo
Vejo apenas dois confusos ponteiros
Indicando o teu certeiro caminho

Na música que aqui me encanta
Acordes que levitam
O corpo febril flutua
Sublime como a garça sobre a lagoa
Voando alto entre as tuas sobrancelhas.

Fotografia



Abre essa janela
Que o sol já quer entrar
Para fazer da vida um jardim lilás

Na fotografia desse momento
O melhor ângulo registro
Longe de tudo
Perto de mim..
.

A Voz do Silêncio


Olhando as páginas do livro aberto
Escuto o silêncio ,
O silêncio me escuta.

O silêncio traz a voz
O silêncio grita ausências...

Nas entrelinhas das palavras
Nas sombras que cada luz cria
Entre o inspirar e o expirar
o som do silêncio
a ensurdecer todo o sentir

No silêncio
O tempo deixa-se mostrar
Sem segredos, sem mistérios,
Sem disfarces...


Simples Canção



Enquanto o mundo cresce
E se desconhece
Prefiro a luz do vagalume
A clarear um pequeno jardim.

Tantas perguntas
Para poucas respostas
Talvez porque,
O exercício de perguntar
Seja mais misterioso e sedutor
Do que o de responder.

Fui intensamente amada
Por muitas pessoas,
Isso me inspira a dizer
Que soube transformar
Minha vida em poesia,
Meus dias em versos...

Na tarde onde os lírios nascem
Somos mais, porque estamos em paz
E do alto do meu céu azul,
Ouve-se, ao longe, uma doce canção...
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