Singular


  Um caminho parece solitário,
Visto que cada caminho é único
É estreito,
  Um passo,
De cada vez...

A solidão necessária do existir
A solidão de ser
Resnascer a cada instante
E saber-se singular

A dor de existir-se
De saber-se
 Crescer , sem deixar de ser criança
Aproximar a palavra ao pensamento,
Aproximar a escrita ao sentir

Um caminho de um só
Ser só
Só ser
Como a flor não pode esconder sua cor
Nem o sol esconder seu brilho

Refletido

Algumas palavras me vestem
Outras me desnudam...

Alguns abraços me retêm
Outros me libertam...

Sem sentido
Sem ter sido
Sem ser  sinto
Refletido

Desafio

Chamada a desafiar seus medos
Dançou à beira do abismo...
Dormiu sobre os trilhos do trem...
Ousou amar novamente...

Correndo na contramão do seu destino
Aceitou a impontualidade de ser!
E após longa batalha,
Respirou a suave plenitude
 Encharcando-se da sublime alegria de viver!

Todas as Cores



Dentro de mim
Amanhecem todas as cores;
Se me apaixono, vermelho
Se me alegro, amarelo
Se sou sentimentos, lilás
Se me abandono, cinza
Se me deixo morrer, preto
Se me calo, branco
Todas as matizes
Num só corpo
Um só corpo para todas as cores.

Lírios Florescendo

                                                        

 Para  Flávio


De  um  encontro  feliz
O que  restou de  nós
Foram lírios florescendo.

Ao  olhar  o  céu
Ver  que  muitas  nuvens  ainda  passariam
E  o  sol  voltaria a  brilhar  por muitos  dias
De  que o fim  poderia  ser  outro recomeço.

Porque  para  se  viver
Basta  respirar e  acreditar,
Como  um  filho  que  nasce,
E  nos  faz renascer na  mesma  vida.

Existem  flores que  nunca  morrem.
Se  no  jardim da  verdade  são  semeadas
Perfumam  o  nosso  ar  eternamente.

A Menina e o Tempo



Lá aonde se espera a vida
Aonde as feridas são indolores
A menina aprisionada no tempo
Faz soprar, nos céus, os ventos da mudança

Enquanto as árvores não crescem
E ainda pulsa a cor da esperança
Tenha, ao toque das mãos
A maciez dos dias amanhecidos

Quando as crianças choram
Alguém as olha por detrás das nuvens
Protegendo-as das lágrimas que deixam marcas
Que são logo transformadas em chuva

E que de chuva encharca
A terra que ainda não foi plantada
Brotam, mesmo que silentes,
Nos olhos de quem ainda não cresceu
Ao viver, se desejando ou sentindo
O sol que ainda vai brilhar

Quebra-cabeça





Sem pressa,
Fico a juntar as peças do quebra-cabeça
Peças grandes, coloridas
Peças de luto, delicadas
Pequenos fragmentos a formarem
A imagem dedicada ao ontem.

Pedaços de um brilho singular
A representar pessoas,
Situações vividas
Emoções sentidas
Cada qual com sua beleza, seu feitio
Formando quadros nos seus encaixes
E uma imagem que se parece comigo
Olhada, ao longe...

Com Licença para Viver



Enquanto desfaço-me de minhas certezas
Enquanto vou aprendendo a duvidar de meu destino
E apontar rumos incertos
Tal qual uma bailarina despe-se de seus véus
Vou lapidando minha arte de viver

O cheiro da poeira a se levantar
O som da porta a se abrir
Ainda fazem meu coração estremecer
Sinal que a vida habita em mim

Sem pedir licença
A vida se faz e refaz
E ao se olhar no velho espelho
Vê refletida sua inquietação
E faz do tempo seu grande amigo.

Luz e Sombra



Na claridade, vejo meus poros
Na sombra, minhas ilusões
Figura e fundo...
Casca e Miolo...

Na luz vejo meus olhos
No escuro, meus fantasmas
Sem me distorcer em vultos
Enxergo melhor em luzes apagadas

Na solidão, o espelho é visível
Repentina, toda claridade me cega
O ouro em pó se derramou
Percorrendo os vãos da escada
Quem sobe, sem medos,
Enfrentando seu próprio breu
Reluz, cintilante, adentro madrugada.

Varais de Lembranças




Pendurei minhas lembranças no varal

Resolvi que delas nada mais posso tirar
Delas ninguém, sequer, saberá
Se as retiro, sem querer, ainda úmidas
Em nenhum armário posso guardar

Por isto, deixo o sol encandecente
A envolver em seus longos braços
Secando todas as mágoas e mazelas
Como folhas secas em estilhaços

Frescas e muito mais leves
Se tornam as lembranças
Que ao sol, adormecidas, secaram
Onde os ventos se debruçaram
Perfumando sua pele já enrugada

Seu destino, então, já previsto
Se põe em passos largos
Ir de encontro, procurando um lugar
Onde possam, enfim, descansar
Junto a outros sentimentos guardados.

Ilusões


Quisera eu ter menos ilusões,
Mas elas,
Incessantemente,
Me abraçam...
A criança que existe em mim
Está fadada
A jamais crescer.

Infinito



Ao amigo, grande poeta, grande pessoa



E da Tua poesia veio o silêncio...
E das tuas mãos nasceu o espaço em branco...
Da tua afetiva presença surgiu o imenso vazio...

Vida livre na Era de aquário
Assim te vejo, Coração intenso
Há braços* a te esperar...
Grandes pessoas não cabem neste mundo
Precisam sempre ir além...
Infinito


*"Há braços" , uma expressão do querido amigo, ao se despedir...

Feliz Tempo Novo




Observo, encostada na soleira da porta
Toda a vida apressada passar
Lá vejo pessoas, ouço vozes
Amigos, amores, lembranças
Todos passam e vão-se embora
É necessário ir!
O que se há de fazer?

Junto deles passam os anos
Inquietudes de adolescente
Dúvidas da juventude
Algodão doce, irresponsabilidade
Passam apressados sem saber

A sabedoria está em aceitar o fim
Talvez esta seja a mais árdua e pesada...
Mas depois do fim
Um novo começo, sempre!

Lá vem a brisa de um novo tempo
Despontando no horizonte
Já posso sentir seu frescor
Tocando meus cabelos

Junto a mim somente o AGORA
Abro os braços e deixo escapar
Livre como um pássaro, todo o passado, outrora

Vão-se sonhos abandonados,
Objetos quebrados, papéis rasgados
Nada mais é preciso ficar
Tudo passa e vai embora
O que se há de fazer?

Assisto a tudo e posso crer
O Tempo sabe muito mais do que todos nós
Para que desobedecer?

Nas Asas do Tempo




As asas do tempo
Às vezes, atrapalham
O meu próprio vôo...

O Amor somado ao tempo
Às vezes adoece,
E morre multiplicado.

O amor somado à distância;
Cristaliza-se em gotas de lembranças
Eternizadas nos poros da pele.

E da união do amor com o tempo
Nos dias tranquilos
Em dores de parto,
Nasce o filho chamado
Saber.

Feminina



Pela manhã

Desfaço as tranças do cabelo
Que os sonhos da noite teceram

De cara lavada,
Desperta de qualquer ilusão,
Percorro as ruas sinuosas do meu desejo
Seja lá, onde elas já percorreram,
E onde me conduzirão...
Trazendo a realidade da vida para junto de mim.

De pés descalços
Sinto a terra ainda úmida
Que me arranca os ares de menina
Solto das mãos, então, as esperanças cegas do ontem,
Para viver, enfim,
Dentro de cada poro da pele,
Um tempo redescoberto.
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