Reticências


Adoro reticências!
Aqueles três pontos intermitentes
que insistem em dizer que nada está fechado,
que nada acabou,
que algo sempre está por vir!...
A vida se faz assim!
Nada pronto, nada definido.
Tudo sempre em construção.
Tudo ainda por se dizer...
Nascendo...
Brotando...
Sublimando...
Vivo assim...
Numa eterna reticência...
Para que colocar ponto final?

Um Caso de Amor


Do muito que já ouvi
Do muito que já disse
Uma só palavra como réu e cúmplice:
O AMOR
É por ele que as pessoas choram
É por ele que as pessoas lutam
É por ele que as pessoas vivem
O desejo de ser amado
O desejo de ser aceito
O desejo de amar
Amor à sí próprio,
Amor à vida,
amor à alguém.
Amar para transcender,
Amar para não morrer,
Amor para não ser esquecido...
Amor...
Sempre o amor...
Incorrigível!

Sempre


Eternas são as flores
que nunca expuseram sua beleza no mundo,
mas brotam a cada momento dentro de mim...
Eterno são os lábios que despertam desejo,
mas que nunca são tocados...
Me apóio em uma nuvem,
e daqui de cima
as flores são sempre lindas,

nunca murcham!

Além das Montanhas


Para meu querido Flávio


Lado a lado,
em viagem sem volta,
encostei meu ombro no seu,
e subitamente uma ponte se criou.

Por lá passaram sentimentos e recordações,
Por lá atravessou toda a esperança de dias melhores.
Nasci amparada por montanhas,
e bem além delas, à minha espera, um universo a ser criado.

Da ponte criada, fez-se um mundo,
sensações e frutos,
um ser com olhos de mar, um mar coberto de azul.

Através da neblina,
além das montanhas,
encontrei o meu lugar.


Livre


Sem correntes;
despedi-me de conclusões.
Sem algemas;
desisti de soluções.
Saí por onde entrei!
Singelos e manifestos,
sem água, sem mágoa,
sem tranças....
Com a respiração suspensa,
na ponte que une terras imensas,
saio por onde entrei!
Abro os braços
para sentir o tamanho da liberdade!
Abro um sorriso ,
para medir a plenitude da felicidade!
Livre de impressões,
saio por onde entrei!

Passagem


Nasço
Tempo
Renasço

Corto
Tempo
Saro

Separo
Tempo
Uno.

Ouço
Tempo
Canto

Falo
Tempo
Calo

Sei
Tempo
Não sei

Apenas o tempo nos faz melhores!...

Germinação



Quando a noite chega

E o sono lentamente vem me abraçar,

Derrama sobre os meus cabelos
todas as estrelas do céu...

Seu brilho enche minha alma de pura poesia...

Colho as coloridas flores
que nascem de sementes há pouco germinadas

E que num instante completam

E enfeitam meu papel

E minha vida!




Busca Constante


Em busca constante

De um sonho distante

A menina errante

Um amor delinqüente

Marginal são teus lábios

Onde nos dias frios encontro refúgio.

Sabe lá onde estará agora

O meu coração displicente?
.

Viagem Perdida


A morte veio a minha procura

Quando finalmente me encontrou

Olhou-me nos olhos

E como quem perde a viagem, desistiu temporariamente de mim...

Mas, todas as noites vem vigiar meu sono...

Tornei-me sua amiga!

E posso te contar?

Ela é tão medrosa e indecisa como todos nós!


O Encontro


Saio a procura pela estrada escura, algo se perdeu em algum ponto da trilha sombria. Ando por noites e dias, olhar distante, vaga recordação...

Subitamente vejo, ao longe, uma criança deitada, adormecida.

É uma delicada e linda menina!

Corro ao seu encontro, de perto, a vejo melhor, repousando seu cansaço. Olhou-me, como quem estava a minha espera; e naquele olhar, vi pela primeira vez, o que jamais consegui apenas com os olhos...


Havia tanta vida naquele corpo!


Seu coração batia tão forte, que pude vê-lo pulsando sob sua pele. Seus sentimentos tão transparentes e comoventes que me transpassaram como feixes de luz.

Aquele encontro indefinível mudou a minha vida e meu caminho, incharcou-me de silêncio e paz!


Desde então, caminhamos lado a lado; eu e a criança iluminada, nunca mais minha estrada foi tão sombria!
Completamente inebriada e feliz, dei-lhe o nome de POESIA.

Verde Pai


Ao  meu  Pai, Harvey,  que  hoje  completaria  75  anos 


O Verde da sua roupa 
Sempre te roubou um pouco de mim.

Os acordes de suas  notas

Sempre estiveram presentes
Como  fundo  musical

Em  nossas  vidas.

Agudos e graves nos  seus  dedos

Ao  tocar  um  instrumento,
 Ecoam eternamente nos meus ouvidos; 

Das muitas casas onde vivemos  
Guardo a mesma lembrança de  você:
 Uma bela  criança que se recusou a crescer.

Você fez da minha vida uma linda canção
E a herança que deixaste para mim

Traduziu  o seu  grande  tesouro:
Sua  sensibilidade e  sua  arte
Que soa eternamente como música
E saudade no meu coração.

Janela da Alma


Me debruço sobre o papel
Meu olhar sai a procura
Abaixo vejo o mar
com suas ondas sempre palpitantes.
Acima vejo o céu
alguns pássaros perdidos e absurdamente livres...
A frente
o horizonte
pleno de circunstâncias!
Começo ,então, a escrever
enfim e sem fim.

Tempo-Mãe


A vida mudou
O tempo encurtou
A moça cresceu

e foi mãe.
E depois que se é mãe,
todo tempo encurta mesmo!
Esse é um segredo
que só as mães e o tempo sabem!...

Paz


Imagino que, lá bem perto do fim, exista uma casinha encostada a beira do caminho, esta deva ser bem simples, feita de pau-a-pique, onde entramos e encontramos um banquinho para sentar. Nada mais é preciso naquele momento, apenas um café quente e um banquinho, onde possamos descansar nosso corpo cansado, olhar pela pequena janela e pensar.
Pensar no que fomos, no que construímos, no que sentimos vida a fora e no nosso longo caminho percorrido.
Acredito que nada mais seja preciso, nada de material, nada que nos pese . Para quê? Se tudo que há de mais rico carregamos dentro de nós, e nos acompanha aonde quer que estejamos?
Minha alma é antiga, e de tanto percorrer caminhos, se sente cansada. Mas sentar neste banquinho, nesta casa que protege e acolhe é o necessário!
Olhar com carinho para si e não ter medo do seu próprio reflexo!
Acredito que isto seja estar em paz!

Alma Mineira



Minha alma é mineira
Farejadora de ouro e poesia
Aprendiz de luz e pérolas
Garimpeira de rubis, esmeraldas e jades
Num brilho de ofuscar
Nas Minas do sempre ser
Tem sotaque, tem mesmices
Tem cheiro de pão fresco
e andar nas ruas de barro, sempre abrindo porteiras
Minha alma é mineira
É simples, é ritmada
como o cantar das violas
É o escultor e a escultura
É o artista e o seu feito
É o pintor e sua pintura
Minha alma é mineira
É a obra inacabada....
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