Primavera



É chegada a hora
Onde a poda se faz necessária
De galhos que ontem floresceram
E Hoje, maduros, se deixarem morrer...

É chegado o tempo
Da pequenina semente germinada
Em épocas passadas, solta e abandonada
Romper a terra, aflita, em busca do sol...

De mãos, outrora, contidas e atadas
Em busca de saciar a fome
Prepararem, seguras, a próxima refeição...

Pois que, a primavera já nos surpreende
Com um corte súbito e profundo
Em cada destemido e esperançoso coração.

À procura de novos sonhos,
Aproxima-se a furiosa correnteza
Que lava todas as angústias enternecidas
E faz nascer uma flor em cada dedo da mão.

Desafio


Chamada a desafiar seus medos
Dançou à beira do abismo...
Dormiu sobre os trilhos do trem...
Amou novamente...
Correu na contramão do seu destino
Aceitando a impontualidade de ser!
E após longa batalha,
Respirou a suave plenitude
E encheu-se da sublime alegria de viver!

Depois da Chuva


Desmanchando em pedacinhos
Todo o cortejo se desfez
Cada pessoa em busca de seu caminho
Feito água derramada na ladeira...
Cada gota correndo apressada em busca do seu lugar.
Nada parece igual depois da chuva!
O sol vem e faz mais uma estréia,
Como se nunca tivesse levantado atrás das montanhas!
De alma limpa e renovada
Tudo começa outra vez!

Doce


Ao meu filho Davi


A doce música vinda do seu quarto
Transporta-me para um tempo em que sonhei
Via nas nuvens tatuado
Um rosto como o seu, a me olhar

O suave perfume que vem do seu quarto
Toca profundamente em meus anseios
Movimento lento, silente
Intacto e emoldurado
Do eterno instante em que te vi

Amor e sonhos convergidos
Impasse que o destino leu
No calor que sempre emana
Do ventre que te protegeu.

Nas paredes brancas
Sou a protagonista
Do sonho que ontem ousei ter
Passado e presente transpassados
De mãos dadas vida a fora
Escritos num filho que me faz crescer.

Raro Momento


Amanheci com gosto de ontem
Da janela do meu quarto pude ver
Um emaranhado de joaninhas
Todas de uma vez só
Aproveitando um dia de sol
Quando dormimos depois de um dia feliz
No dia seguinte
Acordamos vendo tudo que antes era raro ver...

Diário Adolescente



Adalgiza era uma moça singular.
De cabelos cacheados, não gostava de alisar.
Pensava que estar na moda era estar antenada com o seu próprio jeito de andar. Não gostava da idéia de ficar parecida com as mil garotas do seu colégio.
Gostava de ouvir Elis, enquanto sua turma ouvia Lenny Kravitz.
Dois para lá, dois pra cá , com band-aid no calcanhar e tudo!...
Não se importava com as piadinhas...
Afinal, tinha um excelente bom humor!...
Mas só se atrapalhava quando o assunto era tratar das coisas de amor...
-Pronto! - Já dizia. Não preciso de ninguém mesmo!...
-É melhor ficar sozinha!
Mas, no fundo, só ela sabia como e onde doía.
Ver que não conseguia esconder seu interesse e sua timidez
quando se aproximava aquele a quem tinha escolhido
para ser o único a estar em todas as páginas de seu diário;
com direito a corações flechados e desenhos com suas iniciais.
Mas mesmo assim, um dia ele a notou e a achou diferente das demais.
Seria o cabelo encaracolado?...
Seria as músicas da Elis?
Não sei...
Ninguém sabe...
Só se sabe que amando e sendo amada, é que Adalgiza foi realmente feliz!

Contratempo


Condensado em uma nuvem
Todo desejo imóvel alí espreitava
Inchou-a tanto, por tanto tempo
que a explodiu!...
Dela caíram milhares de pingos dourados
Encharcando a árida terra.
Brotaram então, tímidas sementes de trigo
e um intempestuoso amor por você!
E apesar do tempo
Contra o tempo, contra o vento, contra tudo
Lindos tempos vieram...

Abstrato


Na segunda chance de viver
Tento ser o que me foi esquecido
O que mais semeei, desisti de colher...
Pois,que, o mais essencial agora me chama.
Dos retratos de mim, do contorno de perfis
O que consigo tocar com as mãos
Já me é indiferente...
Quero o roçar do abstrato!
Do que mais sublime e verdadeiro posso sentir
O que somente a emoção consegue exilar
No seu doce e leve embalo,
Tento extrair o sumo de melhor ser
Afinando a percepção
a capturar o que de mais límpido e insano há em mim.

Céu sem Estrelas


Desenhei seu rosto em uma estrela
E pelas ruas desertas após a chuva
Nadei em cada poça d'água
No reflexo delas refletido
Vi outros invernos apressados passarem por mim
E pela imensidão deste mundo permanecemos
Sós e calados...
Depois que o nosso amor morreu
Nunca mais ousei olhar o céu...

Mutante


Na mesa de cabeceira
Vigiando meu sono
Meu retrato me aguarda dormir
Amanheço, levanto
E naquele retrato não mais estou
A figura estática já se transformou
Saio às ruas procurando as pessoas de ontem
E por trás de sua máscaras de pele
Já não há as mesmas conhecidas
Todas se transformaram...
como eu...
Um cabelo cresceu
Um outro interesse de súbito nasceu
Todas são mutantes errantes
Como eu...

Da Poesia


Entre meu papel e minha caneta
Está um hiato.
Um silêncio, uma respiração
Um mundo a ser criado!
Poesia que me engole
Poesia que me inunda
Poesia que me leva
Molhando e manchando para sempre
As linhas do meu tempo
E do meu caderno...

Cores e Olhares


Na tranquilidade da noite
Invadi o seu jardim
Com a impetuosidade dos apaixonados
Corrí de braços abertos sob o céu lilás
Absorví os tons do estranhamento
Como quem se vê pela primeira vez...
Colhí a essência da sua respiração...
Nem sei se, ao deitar sobre a grama, pude observar as estrelas
Tanto bem que já me fez!
Adornei os cabelos,
Como fazem as pessoas que se preparam para ir embora,
E por entre as mechas,
Coloquei suas cores e seus olhares...
Sem saber que neste gesto
Ficaria com você todo o tempo em meus pensamentos!...

Insensatez


Com olhar entorpecido pelo desejo
Fui ao seu encontro em desafio
Deixei rastros por todo caminho
Com o inebriante perfume da insensatez
Fiz bailes em meu coração,
Até o raiar do dia!Dancei, cantei, suei!
E nas notas da caixinha de música
O desejo amanheceu, ruindo o doce impacto que uma noite traz
O perfume evaporou, sem prumo, no ar que me rodeia,
Sem música, a insensatez partiu sem nenhum adeus
A festa chegou ao seu fim
Sem um tempo certo para recomeço.

A Transformação


Parecida com uma minhoca rastejava......


E a Reticência, em um súbita mudança de postura....


Levantou-se e decidiu crescer!...
Mas viu que para isso deveria mudar drasticamente a si mesma!...
E tudo a sua volta, todas as frases, a partir de então,
mudaram de sentido!



Avós


Saudades de suas risadas,
Cabelos brancos em meio a ruivos
Múltiplas sardas na face
O costumeiro bom humor e deliciosas cocadas
Força e determinação indomáveis
Vida a fora sempre lutando
Alegres e incomparáveis!
Dançando pelos cômodos da casa,
Criando novas receitas para melhor se comer
Deliciando a todos com sua enorme alegria de viver!
Lembranças postas sempre a mesa,
De teatros e uma longínqua vida de artista
Numa reunião de cálices de vinho
Um cheirinho italiano no ar
Conversas para esclarecer
Preocupações que revelavam o verbo: amar
Dentre tantas, fui escolhida
A pertencer a uma linda trajetória
De percalços e acertos
Na maravilhosa história de suas vidas
.
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