A Dança


Transpasso
E perco o passo

Esta música que vem do meu corpo
Faz-me criança outra vez

Rodopio e crio
O solo compartilhado com a alma

Nesta dança,
Por uns instantes,
Sou as nuvens,
A deslizar pelo azul

Na contradança
Sou o sol,
Dourado e cintilante
A refletir-se em meu rosto.


Essencial




Sentem mais
Os que se põem a olhar
As belezas das coisas mais simples.
E do simples,
Conseguir ver o essencial.

Sentem mais
Os incansáveis
Em busca de si mesmo.
Sofrem mais
Os que amam mais
Os que acreditam e se dedicam ao outro.

Sofrem mais
Os que acreditam
Que no amor ou na amizade
O tempo transcorre junto aos relógios.
Sabem, os que amam,
Que basta o encontro tardio
Para que o tempo recomeçe
Do ponto exato aonde foi interrompido.

Vivem mais,
Os que apreciam suas emoções,
Sem reduzí-las ou amenizá-las,
Pois a vida é intensa...
E incógnita...

A Menina e o Tempo




Lá aonde se espera a vida
Aonde as feridas são indolores
A menina aprisionada no tempo
Faz soprar, nos céus, os ventos da mudança

Enquanto as árvores não crescem
E ainda pulsa a cor da esperança
Tenha, ao toque das mãos
A maciez dos dias amanhecidos

Quando as crianças choram
Alguém as olha por detrás das nuvens
Protegendo-as das lágrimas que deixam marcas
Que são logo transformadas em chuva

E que de chuva encharca
A terra que ainda não foi plantada
Brotam, mesmo que silentes,
Nos olhos de quem ainda não cresceu
Ao viver, se desejando ou sentindo
O sol que ainda vai nascer

Feminina


Pela manhã
Desfaço as tranças do cabelo
Que os sonhos da noite teceram

De cara lavada,
Desperta de qualquer ilusão,
percorro as ruas sinuosas do meu desejo
Seja lá, onde elas já percorreram,
E onde me conduzirão...
Trazendo a realidade da vida para junto de mim.

De pés descalços
Sinto a terra ainda úmida
Que me arranca os ares de menina
Solto das mãos, então, as esperanças cegas do ontem,
Para descobrir, enfim,
Dentro de cada poro da pele,
Um tempo redescoberto.

Quebra-cabeça




Sem pressa,
Fico a juntar as peças do quebra-cabeça
Peças grandes, coloridas
Peças de luto, delicadas
Pequenos fragmentos a formarem
a imagem dedicada ao ontem.

Pedaços de um brilho singular
a representar pessoas,
situações vividas
emoções sentidas
Cada qual com sua beleza, seu feitio
Formando quadros nos seus encaixes
E uma imagem que se parece comigo
olhada, ao longe...

Ao Entardecer



A manhã rompeu ,
arrancando as flores que nasceram ontem
Tão frescas, e tão maduras
anunciando o fim de primavera

O céu ainda buscava o seu perfume,
e na fotografia, sua imagem inerte
a despertar um sol amanhecido

Olhando seus sonhos de frente,
Jamais se perdeu de vista...
Pois que, ao escutar suas próprias vozes
Inventou sua própria felicidade...

E assim,
Se deixando levar pelo vento fresco,
sua vida entardeceu...

O Vento



Minha alma pinta
em grandes murais coloridos
Imagens que o tempo
esqueceu dentro de mim

Rodopia, por longas horas, diante do fogo
Em cirandas, na qual cada ardente figura
E cada brasa desprendida
Me recordam horas felizes e plenas.

O vento que sopra em meu rosto,
não se cansa de me trazer metáforas...

A Tradução do Silêncio


Foto: René Magritte

Guiada por uma estrela
Na noite incandescente
Cores, aromas e sensações
Trazidas por imagens inconscientes

Não somos mais os mesmos
Somos um pouco mais
No minuto atrasado
Do tempo que chega

A lógica sem sentido
De velhas pulsações
Levitando sobre a página do livro aberto
à deriva...
Na torrente de emoções.

Estou no que digo, mas ,
Principalmente no que deixo de dizer
Estou no hiato
Na hiância
Nos intervalos
Sobre a ponte entre duas margens inexistentes.

O Tudo e o Nada
Na solidão dos mosteiros
Na tradução do silêncio.

Sobre o Amor

Foto: O Beijo , Gustav Klint


Quando toquei
E inutilmente esperei resposta,
Errei.

Quando abracei
E inutilmente esperei retorno,
Acordei.

O amor é um eco da própria voz
no coração do outro.

Quando é possível ouví-lo
Fascina
Faz - sina...

Amar, verbo intransitivo,
Bem disse o poeta.
O amor nasce da sua própria fonte
e deságua sobre aqueles que têm sede.

Refletido


Algumas palavras me vestem
Outras me desnudam...

Alguns abraços me retêm
Outros me libertam...

Sem sentido
Sem ter sido
Sem ser, fito
Refletido

O Som do Silêncio




Olhando as páginas do livro aberto
Escuto o silêncio ,
O silêncio me escuta.

O silêncio grita vozes no escuro
O silêncio grita ausências...

Nas entrelinhas das palavras
Nas sombras que cada luz cria
Entre o inspirar e o expirar
o som do silêncio
a ensurdecer todo o sentir

No silêncio
O tempo deixa-se mostrar
Sem segredos, sem mistérios, sem disfarces...


A Pérola e o Oceano



Um colar de pérolas se desfez

Várias delas se espalharam

Sabendo, cada qual , o seu destino

Correndo apressadas para o fundo do oceano

Feito um labirinto percorrido e desvendado

Todo o mar, ansioso, as aguardava

Como amantes distantes que não se vêem

Apenas sonham um com o outro

E no reencontro tardio,

Soluçam felicidade...

Primeiros Passos



Vincent Van Gogh - First Steps

Sobre a ponte amarela
Descansa meus sonhos
Nos primeiros passos
Os mais secretos desejos

Perto ou longe
Na terra a se arar
Sementes já brotam
Manifestando a ânsia de viver

Meus versos tão pessoais nascem aqui
No solo da vida da qual me inseri
Minhas palavras
São os rastros que deixo

Delas partem o sentimento puro
Delas nascem o giro do mundo

No sol que me habita
No céu que me amplia
No calor que me alimenta
No afeto que me sustenta




Pés Descalços



Nada oculta-se aos olhos de quem sabe
O saber te leva mais longe
Do que seus próprios pés.
Pois, o que encanta,
E no encontro,
O sábio e o caminhante andam juntos.

Quando os pés duvidam
O saber suporta
Quando os pés duvidam
Abre-se a porta:
Do saber de si
Do saber sobre o outro

Sobre a ponte que me conduz mais além
Pisando o asfalto da decisão
Do poder de escolha
De ir e voltar ,
quando assim desejar,
Apóio meus pés descalços,
Sem me deixar parar.

Construção



Sou muito mais do que o antes
E menos ainda do que o depois
Sou o que já se forma
O que já se transforma
Sem formas
Sou o que soa
Sou o que se reforma
Sou Pessoa

Da palavra que nasce
Com o próprio jeito
Inovando sempre a cópia
Sou sujeito

Sujeita a tempestades
Sujeita a calmarias
Ora sou inteira
Ora sou metades

Singular ou plural
Às vezes sou o verbo
O que conjuga
O que consente
O que há, dentro ou fora
Passado e presente
Sou o que sente.
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