Sob a Minha Pele


Sob a minha pele
Existe um poeta que grita
Rancores adormecidos
Saudades abrandadas
Suores de um velho tempo

Sob a minha pele
A tua face nua se espelha
No olhar cálido que se eterniza
Sua brandura, sua singeleza

Sob a minha pele
Há desvios, e vidas já vividas
Que transpassam e respiram
Sentimentos amanhecidos
Amores há tantos findos
Afetos coligidos

E uma sombra de luz se forma, em memória
Sob a minha pele, ainda que sem voz, grita
A linguagem da sensível diferença
De quem com os dedos trêmulos toca.

Em Seus Olhos


Em seus olhos encontro
Um caleidoscópio
Que em movimentos silentes e cíclicos
Me fazem tontear

Um labirinto para mim
Em curvas constantes fazem
O sentido perder
Sentir sem querer
A hora de sair

E nessa correnteza
Me deixo levar
A levitar, de braços abertos
Destinos incertos
Sentimentos secretos
Em caminhos desertos


Como são calmas e límpidas as tuas águas!...

Amor Per - Feito


Percorri um dia os campos de amor-perfeito
Doce encanto aquele
Sentir o cheiro da paixão


Com a luz batendo em meus olhos
Cega fiquei pelo exato momento daquela ilusão


Soube um dia de uma tal flor sem pétala
Correndo fui eu encontrar
Im- per - feita visão


Com a luz batendo em seus olhos
Pude ver a beleza inebriante da mentira
Mas, mesmo assim, me apaixonei...
Pela cor exata da tua sinceridade.

No Contar dos Dias


Recolho, às vezes, minhas cores
Deixando o sóbrio branco reinar
No contar dos dias
Ainda que exista o improvável
Por entre as horas
De quem já se cansou de esperar

Na sombra misteriosa dos dias
A primavera com seu feitiço prima
Solto um grito entalado na garganta
Ao ver que ainda existem
Pássaros absurdamente livres

Colho, então, minhas tempestades
Para que delas eu possa um dia fazer
Revelando meus segredos a alguém
Um caminho rendado de flores
Onde possa chegar além

No Meio do Caminho


No espelho olho fixamente
A imagem do ontem
Tão longínqua, tão fascinante
Tão mais jovem do que eu
Correndo ligeira
Inalcançável...

No espelho olho fixamente
A imagem do amanhã
Tão longínqua, tão distante
Tão mais sábia do que eu
Se esconde por entre a lembranças
Correndo ligeira
Inatíngível...

Enquanto isto
No meio do caminho
Um eu do agora me espera
Olhando fixamente em meus olhos
Dentre tantas imagens no espelho
Tentando se encontrar mais uma vez
Incorrigível...


Poesia escrita sob a luz dos 40 anos

Vida


Lá está ela, a vida
Indócil vela acesa
Fugaz, inquieta
Frágil chama enrubrecida
Violenta luz aquecida

Lenta e volupiosa como uma dança
De mãos dadas, o doce encontro
Plena Sedução no olhar
Com quem perto dela chega

Um vento mais forte
Desorienta a pequena bússola
Sem sul, e sem norte
E a pequenina chama
Num gesto de despedida
Corre em busca de outra sorte
E sem pedir licença, se apaga...

Em cada olhar, o infinito


Fico Consciente da sua bela imagem
Quando vejo o sol despontando no horizonte
Como contas de cristais a me cegar
E a luz que entra por esta janela
Faz toda minha coragem despertar


Mergulhado em pequenas porções
O sentimento nosso, de cada dia
De cada olhar, o mais bonito
De todo o amor, o mais polido


E o tempo que me transpassa
Alcança com suas mãos trêmulas
Em cada pequeno gesto, o infinito.

Varais de Lembranças


Pendurei minhas lembranças no varal
Resolvi que delas nada mais posso tirar
Delas ninguém, sequer, saberá
Se as retiro, sem querer, ainda úmidas
Em nenhum armário posso guardar

Por isto, deixo o sol encandecente
A envolver em seus longos braços
Secando todas as mágoas e mazelas
Como folhas secas, e em estilhaços

Frescas e muito mais leves
Se tornam as lembranças
Que ao sol, adormecidas, secaram
Onde os ventos se debruçaram
Perfumando sua pele já enrugada

Seu destino, então, já previsto
Se põe em passos largos
Ir de encontro, procurando um lugar
Onde possam, enfim, descansar
Junto a outros sentimentos guardados.




Delicata



Contesto até o fim, entusiasmada
Um dia de sol pelo menos
Em uma semana nublada

Diante das calçadas nuas a correr
Pernas trêmulas a percorrer
O mesmo caminho que um dia já fiz

Se vejo um botão de rosa a sorrir
Me ilumino toda ao descobrir
Que também eu posso desabrochar

Sortes me esperam na vanguarda
Um anel de pedra azul na mão
E um amor de suspiros no portão






Cálice


Vinho em Cálice

Névoa espalha-se

Corte no silêncio

Ar suspenso

Embriaga-se...

Ciranda dos Ventos


A vida de tão incoerente dói,
De tanto estremecer, destrói
De tanto persistir, corrói

Contínua dança em ciranda
Dos tempos idos e vindos
Do tamanho do instante vivido


A vida vem com o vento
Brisas ou tempestades
E no seu incansável girar
Suporta em seus largos braços,
O presente e o futuro
De quem verdadeiramente ousar viver!

Frágil


Um leve sopro me faz flutuar
No cheiro ácido do limão
Terra batida no canto do pássaro
Que depois da chuva, estufa de alegria

Junto ao tronco rosado do ipê
O vento leva folhas salpicantes
Contato este que traz desassossego


Me pareço, tem vêzes, como uma avenca
Frágil, indócil, no meio do campo em desalinho
Ou então, tal como filhote indefeso
a esperar ansioso comida no ninho.

Clara Idade



No varal, ao sol , vejo penduradas
As roupas que ontem usei
Correndo atrás de um tempo fugitivo
Por toda uma vida
Cortejo, apaixonadamente, a poesia que desperdicei

Disformes, vejo as asas da gaivota que pintei
São pequenas, mas seu vôo é libertador
No sutil e leve espaço de ser
Minhas tristezas duram apenas uma noite
Amanheço, todo sempre, com uma esperança lilás

Diluída em água corrente
Atravesso as paredes do intenso vazio
Colorindo com lápis de cor
Desenhos de um teimoso destino
Feito e refeito em suaves curvas.

Doce


Ao meu filho Davi



A doce música vinda do seu quarto
Transporta-me para um tempo em que sonhei
Via nas nuvens tatuado
Um rosto como o seu, a me olhar


O suave perfume que vem do seu quarto
Toca profundamente em meus anseios
Movimento lento, silente
Intacto e emoldurado
Do eterno instante em que te vi


Amor e sonhos convergidos
Impasse que o destino leu
No calor que sempre emana
Do ventre que te protegeu.


Nas paredes brancas
Sou a protagonista
Do sonho que ontem ousei ter
Passado e presente transpassados
De mãos dadas, vida a fora
Escritos num filho que me faz crescer.

Às Oito


O Dia nasce cinza
Em volta casas, árvores e o tempo
Em torno da lâmpada, meu eterno começo
O vento imóvel se cala

Em oito anos de solidão
Sobram oito meses de pura paixão
Faltam, sempre, oito minutos para ser feliz
Em oito décadas de vida, desejo
Que meus braços contornem o mundo

Signos na pele
Tatuam as oito sensações
Às oito te encontro, nas constelações
Em infinitos instantes para se perder.
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