A Menina e o Tempo


Lá aonde se espera a vida
De onde as feridas são indolores
A menina aprisionada no tempo
Faz soprar, nos céus, os ventos da mudança

Enquanto as árvores não crescem
E ainda pulsa a cor da esperança
Tenha, ao toque das mãos, ainda
A maciez dos dias amanhecidos

Quando as crianças choram
Alguém as olha por detrás das nuvens
Protegendo-as das lágrimas que deixam marcas
Que são logo transformadas em chuva

E que de chuva encharca
A terra que ainda não foi plantada
Brotam, mesmo que silentes,
Nos olhos de quem ainda não cresceu
Ao viver, se desejando ou sentindo
O sol que ainda vai nascer

Rito de Passagem


Foto: René Magritte

Vai infância,
Em toda sua ilusória completude
Deixa-se ir com o tempo
Na quietude das tardes
Nas vozes dos antigos amigos
Nos brinquedos deixados
Na mão que te orienta a crescer

Vai tempo de festa
Onde a adolescência te chama
Onde o primeiro amor te espera
Na claridade dos lindos dias
Na páginas do caderno da escola
Rabiscos e afirmações
De um adulto que deseja nascer

Vai e não olha para trás
Relembra apenas o que se foi,
No passado que te constitui
Nos momentos que te formaram
No que o sentimento hoje flui

Nada mais te prende
A não ser as remotas lembranças
E este olhar para o que ainda não existe
Um olhar para o que está no futuro
Mas , que nem com todo esforço e desejo
Consegues ver...

Vai, mas, não apresses o passo
Desfrute do que te cerca,
Do que te faz crescer,
Do que te emociona
No que a vida te oferecer.

A Tradução de um Silêncio


Foto: René Magritte


Guiada por uma estrela
Na noite incandescente
Cores, aromas e sensações
Trazidas por imagens inconscientes

Não somos mais os mesmos
Somos um pouco mais
No minuto atrasado
Do tempo que chega

A lógica sem sentido
De velhas pulsações
Levitando sobre a página do livro aberto
à deriva...
Na torrente de emoções.

Estou no que digo, mas ,
Principalmente no que deixo de dizer
Estou no hiato
Na hiância
Nos intervalos
Sobre a ponte entre duas margens inexistentes.

O Tudo e o Nada
Na solidão dos mosteiros
Na tradução do silêncio.


Decidida


Mesmo sem ter aonde ir

Ela partiu...

Da boca, engolidas palavras

Formavam um Adeus

Mesmo sem ter o que vestir

Se despiu de velhos preconceitos

Mesmo sem ter o que procurar

Saiu, decidida, e em busca

Sem entender de notas musicais


Compôs e dançou sua linda e doce canção

Decidiu não mais parar...

E na longa estrada

Se pôs a andar, e andar

Pois que, quem nunca se perde

Jamais se encontra.

Colar de Pérolas


Um arredio colar de pérolas se desfez

Várias delas se espalharam

Sabendo, cada qual , o seu destino

Correndo apressadas para o fundo do oceano

Feito um labirinto percorrido e desvendado

Todo o mar, ansioso, as aguardava

Como amantes distantes que não se vêem,

Respirando o amor que deles exalam

Apenas sonham um com o outro

E no reencontro tardio

Soluçam felicidade...

Sensível



Hoje, percebo quem fui
Mesmo que certezas me faltem
A vida oferece a cada instante
Uma nova e rápida estrela cadente
Para que novos desejos sejam desejados
e logo transformados em doce esperança

Existe, dentro de mim
Um lugar silente e resguardado
De todo barulho e bagunça deste mundo
Lá , eu flutuo na música
E tenho a suavidade de uma poesia

Vou correndo encontrar
Assim que as portas se abrem
A força que habita em toda sensibilidade
Pois, engana-se que apenas olha
E em verdade não vê:
Ser sensível , nada em absoluto,
Significa ser frágil.

Alma Mineira



Minha alma é mineira
Farejadora de ouro e poesia
Aprendiz de luz e pérolas
Garimpeira de rubis, esmeraldas e jades
Num brilho de ofuscar
Nas Minas do sempre ser
Tem sotaque, tem mesmices
Tem cheiro de pão fresco
e andar nas ruas de barro, sempre abrindo porteiras
Minha alma é mineira
É simples, é ritmada
como o cantar das violas
É o escultor e a escultura
É o artista e o seu feito
É o pintor e sua pintura
Minha alma é mineira
É a obra inacabada....

Feliz Tempo Novo!


Observo, encostada na soleira da porta
Toda a vida apressada passar
Lá vejo cheiros e pessoas
Amigos, amores, lembranças
Todos passam e vão-se embora
É necessário ir!
O que se há de fazer?

Junto deles passam os anos
Inquietudes de adolescente
Dúvidas da juventude
Algodão doce, irresponsabilidade
Passam apressados sem saber

A sabedoria está em aceitar o fim
Talvez seja a mais árdua e pesada...
Mas depois do fim
Um novo começo, sempre!

Lá vem a brisa de um novo tempo
Despontando no horizonte
Já posso sentir seu frescor
Tocando meus cabelos

Junto a mim somente o agora
Abro os braços e deixo escapar
Livre como um pássaro, todo o passado, outrora
Vão-se sonhos abandonados,
Objetos quebrados, papéis rasgados
Nada mais é preciso ficar

Tudo passa e vai embora
O que se há de fazer?
Assisto a tudo e posso crer
O Tempo sabe muito mais do que todos nós
Para que desobedecer?

Doce


Ao meu filho Davi


A doce música vinda do seu quarto
Transporta-me para um tempo em que sonhei
Via nas nuvens tatuado
Um rosto como o seu, a me olhar


O suave perfume que vem do seu quarto
Toca profundamente em meus anseios
Movimento lento, silente
Intacto e emoldurado
Do eterno instante em que te vi


Amor e sonhos convergidos
Impasse que o destino leu
No calor que sempre emana
Do ventre que te protegeu.


Nas paredes brancas
Sou a protagonista
Do sonho que ontem ousei ter
Passado e presente transpassados
De mãos dadas, vida a fora
Escritos num filho que me faz crescer.

Cores de Mim



Na minha maneira de ser
Me reinvento a todo instante
Num segundo de paz
Estouram artifícios de inquietudes

Vivo sem saber do amanhã
Ou o amanhã que ainda me desconhece
Num dia pinto minhas unhas de vermelho
No outro com a cor da delicadeza

Meus olhos , faíscas em preto e branco
Trazem no espelho de minhas memórias
Movimento e serenidade

Da minha janela, sempre vejo pássaros voando
E o tempo, de mãos dadas comigo,
Caminha ao meu lado silente,
E com seus olhos de futuro
Me ajuda a poder enxergar
Mais uma primavera renascer

Viver é eternamente brotar!

No Contar dos Dias


Recolho, às vezes, minhas cores
Deixando o sóbrio branco reinar
No contar dos dias
Ainda que exista o improvável
Por entre as horas
De quem já se cansou de esperar

Na sombra misteriosa dos dias
A primavera com seu feitiço prima
Solto um grito entalado na garganta
Ao ver que ainda existem
Pássaros absurdamente livres

Colho, então, minhas tempestades
Para que delas eu possa um dia fazer
Revelando meus segredos a alguém
Um caminho rendado de flores
Onde possa chegar além

Medieval



Em pálidos momentos

Correm como antes
Os tempos vindouros
Castanhos e tristonhos
Nas tardes afins.

Sem lampejo,
Sem audácia,
Correm entre o fogo
Das chamas de um breve beijo
Nas lembranças de mim.

E o cálice embriagado espreita,
repousa a turva bebida
que ontem cansada abandonei.

Uma brisa na clara cortina
Esvoaça a densa neblina
De um dia sem fim.

Enquanto


Doce encanto
Serei portanto
Quando tu me olhares
E enfim me notares
Me verás na tela em branco
Me verás em todos os cantos
Com sorrisos e com prantos
Serei sua, até e enquanto
Nosso amor for sagaz e tanto
E Depois ... Quando?
Nem eu...
Nem tu...
Nada desejaremos saber...
Do desencanto.

Parodiando Cecília



Ou isto ou aquilo
Escreveu a poeta
Das muitas escolhas
Nenhuma é a certa
Se quando opta-se
Tantas outras são deixadas para trás
Quero essa, mas aquela é melhor
Quero aquela, mas essa me satisfaz
Como é grandiosa a arte de optar
Sem nenhum remorso deixar
Como saber a melhor?
Se o gosto eu não pude experimentar...
Ou isto ou aquilo
Tamanho é o peso da dúvida
Alguém me diga
Aonde comprar "certezas" à quilo?


Inspirado no Poema "Ou Isto ou Aquilo" de Cecília Meireles

Construção


Sou muito mais do que o antes
E menos ainda do que o depois
Sou o que já se forma
O que já se transforma
Sem formas
Sou o que soa
Sou o que se reforma
Sou Pessoa

Da palavra que nasce
Com o próprio jeito
Inovando sempre a cópia
Sou sujeito

Sujeita a tempestades
Sujeita a calmarias
Ora sou inteira
Ora sou metades

Singular ou plural
As vezes sou o verbo
O que consente
O que há, dentro ou fora
Sou o que sente.
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