Despedida



Jamais em suas terras entrei
Sem que antes me desses permissão
Bebendo da mesma bebida
Tontos, juntos, ficamos
Como despedir-me
Sem nada de ti levar?

Podes até me devolver os presentes que te dei...
Mas como abandonar o sonho que nos guiou?
Se nos vejo juntos movendo os dedos para alcançar o sol;
Dançando enlouquecidos para alcançar o céu...

Depois de um ontem entorpecido
Levanto só para um novo dia
Com sua companhia etérea
Presente em meu campo de violetas

Choro sua partida, porém,
Como despedir-me ?
Se nada de ti, em mim, foi embora?

A Borboleta Azul


Certa vez , me disseram, que eu tinha muita imaginação. Na época levei isto como uma crítica não construtiva, mas agora olhando bem, posso admitir que esta é a minha melhor faceta.

Imaginar nos leva longe demais, tão longe que acabamos por descobrir terras ainda não habitadas. A imaginação me trouxe até aqui...

Certo dia uma linda borboleta azul pousou no meu ombro. Fiquei pasma com tamanha audácia, mas deixei-a ali, aproveitando-me de sua rara companhia.De súbito, saiu a bater suas frágeis asas. O seu azul foi um convite a lhe acompanhar, e a segui pelo caminho que iria dar num abismo.

Olhei para baixo e a altura me fez tontear...

Mas a borboleta azul não se intimidou e seguiu com o seu voar por aquela imensidão!

Com a coragem e alegria de viver que nos invade de vez em quando, me lancei de braços abertos tal qual aquela borboleta!

Ah! Que surpresa a minha!

Descobrí naquele impulso, que se lançar num espaço vazio, era como usar a imaginação e eu também podia voar !

Voar como uma borboleta azul!

Contratempo


Condensado em uma nuvem
Todo desejo imóvel alí espreitava
Inchou-a tanto, por tanto tempo que a explodiu!...

Dela caíram milhares de pingos dourados
Encharcando a árida terra.
Brotaram então, tímidas sementes de trigo
E um intempestuoso amor por você!

E apesar do tempo
Contra o tempo,
Contra o vento,
Contra tudo
Lindos tempos vieram...

Fugitivos


Seus contornos me rodeiam
Num espécie de raro torpor
Jorram palavras não ditas
Desejando a frase quase maldita

Em ti, com tonturas, encontro
Algo similar que temia perder
Te encontro, sem nitidez, antes da minha partida
Sem perceber...

E agora, o que fazer?
Se antes do claro amanhecer
Um amor, bêbado, nos flagrou?

Lá fora, a vida aflita devora
Cada pedaço perdido do desvario
Ofegante respiração entrecortada...
Lembranças, bruscas, fragmentadas...

Uma mera coincidência de amar
No espaço, num instante de olhar
Juntos, medo de perder...
Separados, medo de encontrar...

Sumo



Desde que me descobri em seu olhar,

Conduzi o tempo a um novo ritmo,

Desviei o riacho a um novo rumo,

De todas as flores tirei o sumo,

Em minha solidão refiz o prumo.

Flôr do Tempo


Da sementeira
Aonde plantei o amanhã,
Caíram, feito galhos, nossos olhares,
Num adeus que nunca se concretizou.

Entre os eucaliptos
Por onde eu caminhava de volta para casa,
Nasceram duas flores amarelas,
Simbolizando que um dia estivemos ali.

Às margens de um rio que se faz sempre verde,
Uma estória se findou, sem nem mesmo ter começado.
Três Corações reunidos, para sempre, em um coração somente.
Apenas as impossibilidades são eternas...

Gôsto de Mel


Há de ouvir
O incessável cantos de pássaros
Que nunca voam sobre o mesmo campo
Eternizados no céu,
Como em um quadro de molduras douradas.

Há de ver
Por todo caminho,
Pétalas marfins espalhadas
Onde, por todas a manhãs, com fascínio, caminho.

Pela fresca estação, todo o encanto fulgaz me seduz
No dia, há cores, que pintam, sem cerimônia, minha tez
Na noite, só os sonhos, com gôsto de mel, posso ter.

Ametista




Defino tal qual ourives
O lado, de todos, mais lapidado
Tonta, girando em seus ápices
Liso, multifacetado
Feita da pedra bruta
Cortes na gema lilás
Livre com polidez
Nas espirais de fumaça alecrim
Revivência na pura solidez
Na ametista que existe em mim

Paixão


Ao vento, meu corpo suspendo
Intuito que eternize o momento
Volúpia, densa sensação
Esta, que aflige, a de uma paixão

Atravessa o peito em segundos
Horas parecem segundos
Surreais, dias parecem sonhos
Sonhos parecem reais

Adolescendo como uma onda
Respiro o ar doce novamente
De viver plena e intensamente

Sóbrios, porém ébrios com ardor
Encontro-te fulgás do teu próprio medo
De ver que a paixão um dia se torna amor

Em Busca de Si mesmo


Se um certo "nada" é crescente
Dentro do seu íntimo, dentro do seu ser
Um "nada" que angustia, parte e oprime
Pode ser aí o seu ponto de partida.

O início de uma longa jornada
Onde só você é o peregrino
Pés descalços, sem artifícios
Andar em busca do próprio destino.

Lá, bem longe, ou aqui, bem dentro
Pode estar à espera, colorindo
Uma pérola perdida num labirinto
Onde só você pode encontrar.

Cada qual tem seu jeito, seu caminho
Nas entranhas a existir
Mergulhe, solte-se, fale!
De algumas coisas desista;
De outras insista!

Mortes e nascimentos o esperam
No caminho estreito, só de um,
Tornando-se sujeito de si mesmo
Livre flutue então,
E a pérola colorida, sua será.

Feliz Tempo Novo!




Espreito, encostada na soleira da aberta porta
Toda a vida apressada passar
Lá vejo cheiros e pessoas
Amigos, amores, lembranças
Todos passam e vão-se embora
É necessário ir!
O que se há de fazer?

Junto deles passam os anos
Inquietudes de adolescente
Dúvidas da juventude
Algodão doce, irresponsabilidade
Passam apressados sem saber


Saber aceitar o fim é uma sabedoria
Talvez a mais árdua e pesada...
Mas depois do fim
Há sempre um novo começo!


Lá vem a brisa de um novo tempo
Despontando no horizonte
Já posso sentir seu frescor
Tocando meus cabelos

Junto a mim somente o agora
Abro os braços e deixo escapar
Solto como um pássaro, todo o passado, outrora
Se vão sonhos abandonados
Objetos quebrados
Nada mais é preciso ficar

Tudo passa e vai embora
O que se há de fazer?
Assisto a tudo e posso crer
O Tempo sabe muito mais do que todos nós
Não ouso desobedecer.

Medieval



Em pálidos momentos
Correm como antes
Os tempos vindouros
Castanhos e tristonhos
Nas tardes afins.

Sem lampejo,
Sem audácia,
Correm entre o fogo
Das chamas de um breve beijo
Nas lembranças de mim.

E o cálice embriagado espreita,
repousa a turva bebida
que ontem cansada abandonei.

Uma brisa na clara cortina
Esvoaça a densa neblina
De um dia sem fim.

Diário Adolescente


Adalgiza era uma moça singular.
De cabelos cacheados, não gostava de alisar.
Pensava que estar na moda era estar antenada com o seu próprio jeito de andar.
Não gostava da idéia de ficar parecida com as mil garotas do seu colégio!
Gostava de ouvir Elis, enquanto sua turma ouvia Lenny Kravitz.
Dois para lá, dois pra cá , com band-aid no calcanhar e tudo!...
Não se importava com as piadinhas...Afinal, tinha um excelente bom humor!...
Mas só se atrapalhava quando o assunto era tratar das coisas de amor...

-Pronto! - Já dizia. Não preciso de ninguém mesmo!...
-É melhor ficar sozinha!

Mas, no fundo, só ela sabia como e onde doía.
Ver que não conseguia esconder seu interesse e sua timidez
quando se aproximava aquele a quem tinha escolhido para ser o único a estar em todas as páginas de seu diário (com direito a corações flechados e desenhos com suas iniciais).
Mas, mesmo assim, um dia ele a notou e a achou diferente das demais.
Seria o cabelo encaracolado?...
Seria as músicas da Elis?
Não sei...Ninguém sabe...
Só se sabe que amando e sendo amada, é que Adalgiza foi realmente feliz!

Em Algum Lugar


Vinda de um outro lugar
Por suaves brisas trazida
Perdida em seus sonhos aqui chegou
Em sua bagagem, apenas sua essência
Em terras estranhas entrou

Incômoda sensação de não pertencer
No coração e na alma
Uma teia de vida à tecer
Num emaranhado de francas emoções.

Do seu passado, nada a saber
No presente, pés descalços a caminhar
Futuro, apenas incertezas é o que há
Sua mão sobre o peito, sente...
Sua vida a pulsar.

Ciranda dos Ventos



A vida de tão incoerente dói,
De tanto estremecer, destrói
De tanto persistir, corrói

Contínua dança em ciranda
Dos tempos idos e vindos
Do tamanho do instante vivido

A vida vem com o vento
Brisas ou tempestades
E no seu incansável girar
Suporta em seus largos braços,
O presente e o futuro
De quem verdadeiramente ousar viver!


Related Posts with Thumbnails