Poesia com os braços abertos
Primavera

É chegada a hora
Onde a poda se faz necessáriaDe galhos que ontem floresceram
E Hoje, maduros, se deixarem morrer...
É chegado o tempo
Da pequenina semente germinada
Em épocas passadas, solta e abandonada
Romper a terra, aflita, em busca do sol...
De mãos, outrora, contidas e atadas
Em busca de saciar a fome
Prepararem, seguras, a próxima refeição...
Pois que, a primavera já nos surpreende
Com um corte silente e profundo
Em cada esperançoso coração.
À procura de novos sonhos,
Aproxima-se a furiosa correnteza
Que lava todas as angústias enternecidas
E faz nascer uma flor em cada dedo da mão.
Você

Existem pessoas
Que de tanto amadas
Ficam tatuadas em nosso peito
Existem saudades
Que de tantas vontades
Ficam, para sempre, derramadas em nosso leito
Existem sentimentos
Que de tanto vividos e absorvidos
Ficam gravados em nossa pele
Existe Você
Que de tão linda presença
Emoldura a minha história
E bem antes do amanhecer
Sua sombra, como um sol
De tão iluminada
Já me aquece.
Gradiva

E naquele andar suave
Estavam suas doces lembranças
De seu amor pueril
Numa remota criança
E sob aquele infinito olhar
Dias frios e findos
Ao lado de alguém
Deixados na distância
Perdidos na memória
De quem um dia soube amar
Sem saber...
Existentes nos inquietantes
Momentos de prazer
Para além do tempo
Um amor transportado
Muito além de Pompéia
Num encontro marcado
Para além de um abraço
Sentimentos guardados
E sob seus pés descalços
Um amor no passado
Entre as cinzas de sua memória
Seus destinos entrelaçados.
Decidida

Mesmo sem ter aonde ir
Ela partiu
Mesmo sem ter o que vestir
Se despiu de velhos preconceitos
Mesmo sem ter o que procurar
Saiu, decidida, e em busca
Mesmo sem entender de notas musicais
Compôs e dançou sua linda e doce canção
Decidiu não mais parar
E se pôs a andar, e andar
Pois que, quem nunca se perde
Jamais se encontra.
Intuição

Os olhos muitas vezes
Não conseguem verQual lado é o certo
Quem tem a razão.
Mas quem se aprofunda
Em seus anseios e angústias
Consegue sentir e perceber
O enlace da intuição.
Tal qual uma bússola
Orienta, norteia e guia
Colocando potentes faróis
Iluminando a densa escuridão.
Cada qual tem o seu jeito
De descobrir o caminho
Para mais rápido chegar
Ao ápice dessa exploração.
Quem consegue láchegar
Descobre um grande tesouro
Com brilho e valor incalculáveis
E que ninguém , nunca, consegue roubar.
Luz e Sombra

Na claridade vejo meus poros
Na sombra, minhas ilusões
Figura e fundo...
Casca e Miolo...
Na sombra, minhas ilusões
Figura e fundo...
Casca e Miolo...
Na luz vejo meus olhos
No escuro, meus fantasmas
No escuro, meus fantasmas
Sem me distorcer em vultos
Enxergo melhor em luzes apagadas
Na solidão, o espelho é visível
Repentina, toda claridade me cega
O ouro em pó se derramou
Percorrendo os vãos da escada
Quem sobe, sem medos,
Enfrentando seu próprio breu
Reluz, cintilante, adentro madrugada.
Madura Idade

Depois da poda
Encontro minha forçaFalo com o corpo inteiro
Porque falo mais do que palavras
Desisto e insisto
Pois que, a vida me espera
Profundidades me agradam
Superfícieis, estas, já me são ralas!...
Nasci, de nada sabia
Cresci, desejando conquistar
Aprendi com as águas a ser flexível
Com as pedras, a ser firme
Tampouco me importam as aparências
Como fumaça, sobe e some
Prefiro a terra, úmida, palpável
Que com segurança, vejo ao longe
E onde, madura, posso pisar!
Em Algum Lugar

Vinda de um outro lugar
Por suaves brisas trazidaPerdida em seus sonhos aqui chegou
Em sua bagagem, apenas sua essência
Em terras estranhas entrou
Incômoda sensação de não pertencer
No coração e na alma
Uma teia de vida à tecer
Num emaranhado de francas emoções.
Do seu passado, nada a saber
No presente, pés descalços a caminhar
Futuro, apenas incertezas é o que há
Sua mão sobre o peito, sente...
Sua vida a pulsar.
Sob a Minha Pele
Sob a minha pele
Existe um poeta que grita
Rancores adormecidos
Saudades abrandadas
Suores de um velho tempo
Sob a minha pele
A tua face nua se espelha
No olhar cálido que se eterniza
Sua brandura, sua singeleza
Sob a minha pele
Há desvios, e vidas já vividas
Que transpassam e respiram
Sentimentos amanhecidos
Amores há tantos findos
Afetos coligidos
E uma sombra de luz se forma, em memória
Sob a minha pele, ainda que sem voz, grita
A linguagem da sensível diferença
De quem com os dedos trêmulos toca.
Em Seus Olhos

Em seus olhos encontro
Um caleidoscópio
Que em movimentos silentes e cíclicos
Me fazem tontear
Um labirinto para mim
Em curvas constantes fazem
O sentido perder
Sentir sem querer
A hora de sair
E nessa correnteza
Me deixo levar
A levitar, de braços abertos
Que em movimentos silentes e cíclicos
Me fazem tontear
Um labirinto para mim
Em curvas constantes fazem
O sentido perder
Sentir sem querer
A hora de sair
E nessa correnteza
Me deixo levar
A levitar, de braços abertos
Destinos incertos
Sentimentos secretos
Em caminhos desertos
Como são calmas e límpidas as tuas águas!...
Amor Per - Feito

Percorri um dia os campos de amor-perfeito
Doce encanto aquele Sentir o cheiro da paixão
Com a luz batendo em meus olhos
Cega fiquei pelo exato momento daquela ilusão
Soube um dia de uma tal flor sem pétala
Correndo fui eu encontrar
Im- per - feita visão
Com a luz batendo em seus olhos
Pude ver a beleza inebriante da mentira
Mas, mesmo assim, me apaixonei...
Pela cor exata da tua sinceridade.
No Contar dos Dias

Recolho, às vezes, minhas cores
Deixando o sóbrio branco reinar
No contar dos dias
Ainda que exista o improvável
Por entre as horas
De quem já se cansou de esperar
Na sombra misteriosa dos dias
A primavera com seu feitiço prima
Solto um grito entalado na garganta
Ao ver que ainda existem
Pássaros absurdamente livres
Colho, então, minhas tempestades
Para que delas eu possa um dia fazer
Revelando meus segredos a alguém
Um caminho rendado de flores
Onde possa chegar além
No Meio do Caminho

No espelho olho fixamente
A imagem do ontemTão longínqua, tão fascinante
Tão mais jovem do que eu
Correndo ligeira
Inalcançável...
No espelho olho fixamente
A imagem do amanhã
Tão longínqua, tão distante
Tão mais sábia do que eu
Se esconde por entre a lembranças
Correndo ligeira
Inatíngível...
Enquanto isto
No meio do caminho
Um eu do agora me espera
Olhando fixamente em meus olhos
Dentre tantas imagens no espelho
Tentando se encontrar mais uma vez
Incorrigível...
Poesia escrita sob a luz dos 40 anos
Dentre tantas imagens no espelho
Tentando se encontrar mais uma vez
Incorrigível...
Poesia escrita sob a luz dos 40 anos
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