Alma Cigana


Próximo da grande fogueira
Baila um vulto de mulher
Desfazendo-se das misérias do cotidiano
Na neblina densa de todo mistério
Seduzida pela breve liberdade
De uma alquimia de rara beleza...
Transformando poeira em poesia!...

Pés descalços sobre a terra
Prontos para a próxima partida...
Escolhas temidas e tristes abandonos
Se escondem no rápido movimento de seu corpo.

Sob o olhar da lua em chamas
Todo ritual a fecunda
E os quatro elementos da natureza se fundem
Numa realidade própria
De uma alma cigana.

Faíscas


Pela imensidão azul

A que me proponho

Só uma certeza é constante

Meus muitos brilhos

Pela vida diária ofuscados

Deixam faíscas de rastro

Para que eu mesma

Num adiantado dia

Venha com fome a procurá-los.

De olhos Fechados


Sou muito mais do que o antes e o depois
Perto estou, quando ao longe me encontro
Aborreço e esqueço
Nos intervalos do meu ser


Não desespero; espero
Nos compassos da razão
Repito, erro e crio
Nas cirandas do meu coração


Procuro, quando já encontrei
Sinto e desminto
Mentiras verdadeiras


Sou inteira
Porque me deixo dividir
Amanheço
Pois que me permito anoitecer
Vejo melhor
Quando meus olhos,
Amanhecidos de encantos
Se fecham.

Enquanto


Doce encanto

Serei portanto

Quando tu me olhares

E enfim me notares

Me verás na tela em branco

Me verás em todos os cantos

Com sorrisos e com prantos

Serei sua, até e enquanto

Nosso amor for sagaz e tanto

E Depois ... Quando?

Nem eu...Nem tu...

Nada saberemos...

Do desencanto.

Poesia com os braços abertos


Ser livre, mera ilusão
Até a liberdade em excesso
Pode se tornar prisão
Livre mesmo é o pássaro
Que de tão incerto destino
Abre suas asas
Engole o ar...
E se deixa abraçar pelo vento!

Primavera



É chegada a hora
Onde a poda se faz necessária
De galhos que ontem floresceram
E Hoje, maduros, se deixarem morrer...

É chegado o tempo
Da pequenina semente germinada
Em épocas passadas, solta e abandonada
Romper a terra, aflita, em busca do sol...

De mãos, outrora, contidas e atadas
Em busca de saciar a fome
Prepararem, seguras, a próxima refeição...

Pois que, a primavera já nos surpreende
Com um corte silente e profundo
Em cada esperançoso coração.

À procura de novos sonhos,
Aproxima-se a furiosa correnteza
Que lava todas as angústias enternecidas
E faz nascer uma flor em cada dedo da mão.

Você



Existem pessoas
Que de tanto amadas
Ficam tatuadas em nosso peito


Existem saudades
Que de tantas vontades
Ficam, para sempre, derramadas em nosso leito


Existem sentimentos
Que de tanto vividos e absorvidos
Ficam gravados em nossa pele


Existe Você
Que de tão linda presença
Emoldura a minha história


E bem antes do amanhecer
Sua sombra, como um sol
De tão iluminada
Já me aquece.

Gradiva


E naquele andar suave
Estavam suas doces lembranças
De seu amor pueril
Numa remota criança

E sob aquele infinito olhar
Dias frios e findos
Ao lado de alguém
Deixados na distância

Perdidos na memória
De quem um dia soube amar
Sem saber...
Existentes nos inquietantes
Momentos de prazer

Para além do tempo
Um amor transportado
Muito além de Pompéia
Num encontro marcado

Para além de um abraço
Sentimentos guardados
E sob seus pés descalços
Um amor no passado
Entre as cinzas de sua memória
Seus destinos entrelaçados.

Decidida


Mesmo sem ter aonde ir

Ela partiu

Mesmo sem ter o que vestir

Se despiu de velhos preconceitos

Mesmo sem ter o que procurar

Saiu, decidida, e em busca

Mesmo sem entender de notas musicais

Compôs e dançou sua linda e doce canção

Decidiu não mais parar

E se pôs a andar, e andar

Pois que, quem nunca se perde

Jamais se encontra.

Intuição


Os olhos muitas vezes
Não conseguem ver
Qual lado é o certo
Quem tem a razão.


Mas quem se aprofunda
Em seus anseios e angústias
Consegue sentir e perceber
O enlace da intuição.


Tal qual uma bússola
Orienta, norteia e guia
Colocando potentes faróis
Iluminando a densa escuridão.


Cada qual tem o seu jeito
De descobrir o caminho
Para mais rápido chegar
Ao ápice dessa exploração.


Quem consegue láchegar
Descobre um grande tesouro
Com brilho e valor incalculáveis
E que ninguém , nunca, consegue roubar.

Luz e Sombra


Na claridade vejo meus poros
Na sombra, minhas ilusões
Figura e fundo...
Casca e Miolo...

Na luz vejo meus olhos
No escuro, meus fantasmas
Sem me distorcer em vultos
Enxergo melhor em luzes apagadas

Na solidão, o espelho é visível
Repentina, toda claridade me cega
O ouro em pó se derramou
Percorrendo os vãos da escada
Quem sobe, sem medos,
Enfrentando seu próprio breu
Reluz, cintilante, adentro madrugada.

Madura Idade


Depois da poda
Encontro minha força
Falo com o corpo inteiro
Porque falo mais do que palavras


Desisto e insisto
Pois que, a vida me espera
Profundidades me agradam
Superfícieis, estas, já me são ralas!...


Nasci, de nada sabia
Cresci, desejando conquistar
Aprendi com as águas a ser flexível
Com as pedras, a ser firme


Tampouco me importam as aparências
Como fumaça, sobe e some

Prefiro a terra, úmida, palpável
Que com segurança, vejo ao longe
E onde, madura, posso pisar!

Em Algum Lugar


Vinda de um outro lugar
Por suaves brisas trazida
Perdida em seus sonhos aqui chegou
Em sua bagagem, apenas sua essência
Em terras estranhas entrou


Incômoda sensação de não pertencer
No coração e na alma
Uma teia de vida à tecer
Num emaranhado de francas emoções.


Do seu passado, nada a saber
No presente, pés descalços a caminhar
Futuro, apenas incertezas é o que há
Sua mão sobre o peito, sente...
Sua vida a pulsar.

Sob a Minha Pele


Sob a minha pele
Existe um poeta que grita
Rancores adormecidos
Saudades abrandadas
Suores de um velho tempo

Sob a minha pele
A tua face nua se espelha
No olhar cálido que se eterniza
Sua brandura, sua singeleza

Sob a minha pele
Há desvios, e vidas já vividas
Que transpassam e respiram
Sentimentos amanhecidos
Amores há tantos findos
Afetos coligidos

E uma sombra de luz se forma, em memória
Sob a minha pele, ainda que sem voz, grita
A linguagem da sensível diferença
De quem com os dedos trêmulos toca.

Em Seus Olhos


Em seus olhos encontro
Um caleidoscópio
Que em movimentos silentes e cíclicos
Me fazem tontear

Um labirinto para mim
Em curvas constantes fazem
O sentido perder
Sentir sem querer
A hora de sair

E nessa correnteza
Me deixo levar
A levitar, de braços abertos
Destinos incertos
Sentimentos secretos
Em caminhos desertos


Como são calmas e límpidas as tuas águas!...
Related Posts with Thumbnails