Lua Camafeu


Foto: Sara Bastos

De lua fez-se branca
Nos contornos daquele céu
Chamei-lhe pelo nome
Mas de que nome chamaria?
Se as transformações bruscas são feitas
Ao longo de uma breve vida?

Nas altas horas da noite
Ela, enfim, se opusera à escuridão
Se destacando pela luz refletida
Em seu rosto de camafeu

Contos de uma imagem sortida
Aonde são guardados
Singulares efeitos de linguagem
És uma moça?
Ou uma criança?
Tamanha fascinação que exala
Em seus movimentos intensos

Em sua memória, porém,
Existe o que a define
Lembranças e vultos afins
Chegadas e partidas sem fins
Vivências de sãs verdades
Remotas possibilidades de encontros
Juntos de cada adeus.



Contos de Fada


Foto: Sara Bastos

Como em contos de fada
Reunidos todos num só livro
Recolhi toda pura fantasia
e enfeitei o meu dia

Bem singelo há de ficar,
Sem roteiros, sem destinos
Em páginas sem linhas
Como se as linhas só pudessem existir
Na palma de cada mão

E em cada traço
Se pusesse todos os encantos,
Sem dó, nem prantos
Semeando e colhendo ao mesmo tempo
Sem precisar esperar


E o tempo...
Sem se medir
Não precisaria de relógios
Nada de pontualidades e atrasos
A cada passo dado,
Somente e apenas : o existir.

Sonho, logo existo.

O Portal



Enquanto vivo, teço o meu tempo
Utilizando a linguagem dos sonhos
Cada qual com seu feitio
Uns de âmbar, perfume de sândalo
Outros com cores densas, definidas

No desenrolar das palavras
Vão se formando atos em minha mão
E sentimentos que distâncias não destroem
Afetos que afetam...

No ar que se respira
Tira-se a inspiração de cada momento
E cada instante que chega
É o sumo de impressões que agora tenho

Há os que preferem o previsível
De onde as emoções são calmas e límpidas
E a morna água aquece os pés

Há o infinito, aonde não podemos ver
Chama voluptuosa que arde dentro de nós
Onde os momentos eternos habitam
E que de nascente poesia nos conduz






Um Pouco de Tudo


Quadro : Mesa Posta - Matisse

Somos sempre uma mistura de tudo
Mistura de raças
Mistura de cores
Mistura do que é mais sagrado
Ao mais profano...
Temperos doces junto aos amargos
Num tempo que transcorre sem volta,
Entretanto, com muita pressa...

Por tanto vivido
Por pranto sofrido
Por quanto sentido
Somos a resposta ao tempo
E a soma de tudo

Caminhantes errantes
Sem rumo e sem destinos
Sem saber o verdadeiro caminho
Vamos todos seguindo

Se daqui ou se dalí
Percebendo novas sensações
Despertando-se em novos corações
Desafiando e desatando os nós





Espera


Junto a parede ela repousa,
Sonhos de uma estranha sensação

Corredores, vãos e uma luz vinda da janela
Deixando-a num constante profusão

Com ímpeto seu corpo atravessa
Com determinação a arremessa
Pelo inquietante e branco silêncio
As flores vivas estão cá dentro...
Na pequena sala de espera

Abri a porta para um imenso jardim
Com o desejo de semear e colher
Ah! Como é grandiosa a responsabilidade
De fazer todo o campo florescer!

Em cada olhar, o infinito



Vejo o sol despontando nos seus olhos
Duas contas de cristais a me cegar
Com a luz que se reflete em velhas canções
Em doces instantes que transbordam afeições


O sentimento nosso de cada dia
Mergulhado em pequenas porções
De cada olhar, o mais bonito
De todo o amor, o mais polido


E o tempo que me transpassa
Alcança com suas mãos trêmulas
Em cada pequeno gesto, o infinito.

Varais de Lembranças



Pendurei minhas lembranças no varal
Resolvi que delas nada mais posso tirar
Delas ninguém, sequer, saberá
Se as retiro, sem querer, ainda úmidas
Em nenhum armário posso guardar

Por isto, deixo-as ao sol encandecente
Adormecidas em seus longos braços
Secando todas as mágoas e mazelas
Como folhas secas, e em estilhaços

Frescas e muito mais leves
Se tornam as lembranças
Que ao sol, adormecidas, secaram
Aonde os ventos se debruçaram
Perfumando sua pele há muito enrugada

Seu destino, então, já previsto
Se põe em passos largos
Ir de encontro, procurando um lugar
Onde possam, enfim, descansar
Junto a outros sentimentos guardados.
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