Alma Cigana



Próximo da grande fogueira
Baila um vulto de mulher
Desfazendo-se das misérias do cotidiano
Na neblina densa de todo mistério
Seduzida pela breve liberdade
De uma alquimia de rara beleza...
Transformando poeira em poesia!...

Pés descalços sobre a terra
Prontos para a próxima partida...
Escolhas temidas e tristes abandonos
Se escondem no rápido movimento de seu corpo.

Sob o olhar da lua em chamas
Todo ritual a fecunda
E os quatro elementos da natureza se fundem
Numa realidade própria
De uma alma cigana.

Entre as Margens




Gosto do silêncio
Porque nele ouço minhas próprias vozes

Gosto da escuridão
Porque nela posso ver meus próprios fantasmas

Gosto do Hiato
Onde surgem minhas próprias fantasias

Gosto de paredes brancas
Onde projeto o meu próprio filme

É no silêncio
No Escuro
No Hiato
Onde nasço
Onde surjo
Onde existo

Porque são entre as margens que os rios correm
São entre os parênteses que reside o significado
São entre as montanhas que existem os ecos
São entre os medos que sobrevivem os sonhos.

Memórias




Um  grito
Ecoa no silêncio das minhas  memórias
Tanto há  que  se  explorar
Nas  idades à  que vim a possuir.

Tantos  os  meios  de encontrar
Por  meio  às  flores   que recebi
Tantos  caminhos  à  voltar
Nas  imagens  que, em uma  vida, eu  vi.



Sobre o Amor

 
 Foto: O Beijo , Gustav Klint

Quando toquei
E inutilmente esperei resposta,
Errei.

Quando abraçei
E inutilmente esperei retorno,
Acordei.

O amor é um eco da própria voz
no coração do outro.

Quando é possível ouví-lo
Fascina
Faz - sina...

Amar, verbo intransitivo,
Bem disse o poeta.
O amor nasce da sua própria fonte
E deságua sobre aqueles que têm sede.

Sobre Nós Dois



Segue , agora, você
Que adiante lhe  espero
No caminho que temos a percorrer
Porque somos  ainda imaturos
Para tão intenso sentimento

Segue, agora, você
Que este mundo nos é insuficiente
Para tanta liberdade
Porque nossos  passos ainda pequenos
Não conseguem alcançar
O horizonte de nossas  emoções

Ao  abrir os  dedos  da mão
Ainda  molhados com o meu suor
Seguirás a tua  trajetória
E eu, passo  a  passo,
Sentirei  o  seu  ácido perfume
Em  cada  lembrança

Segue, agora, você
Que  o  amanhã, talvez,
Nos  reserve novo  encontro
E neste  instante, possamos  ver
Que  ainda  somos  crianças
E  em  tão intenso amor
Possamos, enfim, nos  reconhecer.

Fugitivos

Seus contornos me rodeiam
Num espécie de raro torpor
Jorram palavras não ditas
Desejando a frase quase maldita

Em ti, com tonturas, encontro
Algo similar que temia perder
Te encontro, sem nitidez, antes da minha partida
Sem perceber...

E agora, o que fazer?
Se antes do claro amanhecer
Um amor, bêbado, nos flagrou?

Lá fora, a vida aflita devora
Cada pedaço perdido do desvario
Ofegante respiração entrecortada...
Lembranças, bruscas, fragmentadas...

Uma mera coincidência de amar
No espaço, num instante de olhar
Juntos, medo de perder...
Separados, medo de encontrar...

Verde Pai

  Ao  meu  Pai, Harvey,  que  hoje  completaria  75  anos 


O Verde da sua roupa 
Sempre te roubou um pouco de mim.

Os acordes de suas  notas

Sempre estiveram presentes
Como  fundo  musical

Em  nossas  vidas.

Agudos e graves nos  seus  dedos

Ao  tocar  um  instrumento,
 Ecoam eternamente nos meus ouvidos; 

Das muitas casas onde vivemos  
Guardo a mesma lembrança de  você:
 Uma bela  criança que se recusou a crescer.

Você fez da minha vida uma linda canção
E a herança que deixaste para mim

Traduziu  o seu  grande  tesouro:
Sua  sensibilidade e  sua  arte
Que soa eternamente como música
E saudade no meu coração.

Sobre o Amor

 Foto: O Beijo , Gustav Klint

Quando toquei
E inutilmente esperei resposta,
Errei.

Quando abracei
E inutilmente esperei retorno,
Acordei.

O amor é um eco da própria voz
no coração do outro.

Quando é possível ouví-lo
Fascina
Faz - sina...

Amar, verbo intransitivo,
Bem disse o poeta.
O amor nasce da sua própria fonte
E deságua sobre aqueles que têm sede.

Construção


Sou  mais do que o antes
E menos ainda do que o depois
Sou o que já se forma
O que já se transforma
Sem formas
Sou o que soa
Sou o que se reforma
Sou Pessoa

Da palavra que nasce
Com o próprio jeito
Inovando sempre a cópia
Sou sujeito

Sujeita a tempestades
Sujeita a calmarias
Ora sou inteira
Ora sou metades

Singular ou plural
As vezes sou o verbo
O que consente
O que há, dentro ou fora
Sou o que sente.

O Sol que me Abraça

 
 
Mesmo que a rosa
Morra em botão
A vida continua...

No sol que me abraça
Na música que enlaça
Para além da vidraça
No muito, ou pouco, que se faça

Lá ela está, a vida, sem medida,
Sem atrasos,
A nos esperar.


No minuto que já morreu
Mesmo com a ausência silente
Dos que amamos um dia
Seguimos ainda
Pelo mesmo, mas todo dia renovado,
Caminho antes percorrido.

A Pérola e o Oceano


 
 
Um colar de pérolas se desfez

Várias delas se espalharam

Sabendo, cada qual , o seu destino

Correndo apressadas para o fundo do oceano

Feito um labirinto percorrido e desvendado

Todo o mar, ansioso, as aguardava

Como amantes distantes que não se vêem

Apenas sonham um com o outro

E no reencontro tardio,

Soluçam felicidade...

Medieval

                                             

  Em pálidos momentos
Correm como antes
Os tempos vindouros
Castanhos e tristonhos
Nas tardes afins.

Sem lampejo,
Sem audácia,
Correm entre o fogo
Das chamas de um breve beijo
Nas lembranças de mim.

E o cálice embriagado espreita,
repousa a turva bebida
que ontem cansada abandonei.

Uma brisa na clara cortina
Esvoaça a densa neblina
De um dia sem fim.

Primavera

 
É chegada a hora
Onde a poda se faz necessária
De galhos que ontem floresceram
E Hoje, maduros, se deixarem morrer...

É chegado o tempo
Da pequenina semente germinada
Em épocas passadas, solta e abandonada
Romper a terra, aflita, em busca do sol...

De mãos, outrora, contidas e atadas
Em busca de saciar a fome
Prepararem, seguras, a próxima refeição...

Pois que, a primavera já nos surpreende
Com um corte silente e profundo
Em cada esperançoso coração.

À procura de novos sonhos,
Aproxima-se a furiosa correnteza
Que lava todas as angústias enternecidas
E faz nascer uma flor em cada dedo da mão.

Voltas do Tempo



As tranças do meu cabelo
Estão guardadas no armário
Envolvidas em papel de seda
Juntamente com minha infância

Naquelas tardes onde as flores
Exalavam mais o seu perfume
E onde o sol teimava em não dormir
Guardo todas minhas lembranças

Chinelos nos pés
Conversas pueris
Liberdade extrema
Paixões febris

Nas voltas do meu tempo
Todo tempo volta a cada  instante
Por vezes,  ele se  eterniza
Onde  posso , de  longe, ver
A criança que não soube crescer
Com seus encantos e mistérios,
Fez o  ponteiro  do  relógio derreter

Varanda

Moça na Janela- Salvador Dali 
 
Debruçada sobre a pedra
Que sustenta a imensa varanda
Vejo nuvens de lembranças
Onde ao amanhecer
Formam a densa neblina

Paisagens se vão
Carregadas pelos ventos fortes
Que o tempo nos impõe...
Corredores de imagens
Que vida afora
Se formam como quadros na parede

Folhas desgarradas formam outras árvores
Reaproveitando tudo
O que, antes, já foi criado

Depois da ventania
Encontro sua mão
E o que fica a partir de então,
É o mistério alegre e triste
De quem chega e de quem parte.
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