Luz e Sombra




Na claridade vejo meus poros
Na sombra, minhas ilusões
Figura e fundo...
Casca e Miolo...

Na luz vejo meus olhos
No escuro, meus fantasmas
Sem me distorcer em vultos
Enxergo melhor em luzes apagadas

Na solidão, o espelho é visível
Repentina, toda claridade me cega
O ouro em pó se derramou
Percorrendo os vãos da escada
Quem sobe, sem medos,
Enfrentando seu próprio breu
Reluz, cintilante, adentro madrugada.

As Cores de Mim


Na minha maneira de ser
Me reinvento a todo instante
Num segundo de paz
Estouram artifícios de inquietudes

Vivo sem saber do amanhã
Ou o amanhã que ainda me desconhece
Num dia pinto minhas unhas de vermelho
No outro com a cor da delicadeza

Meus olhos , faíscas em preto e branco
Trazem no espelho de minhas memórias
Movimento e serenidade

Da minha janela, sempre vejo pássaros voando
E o tempo, de mãos dadas comigo,
Caminha ao meu lado silente,
E com seus olhos de futuro
Me ajuda a poder enxergar
Mais uma primavera renascer

Viver é eternamente brotar!

Tsuru



Sob a luz da janela
Suas asas parecem mais coloridas e brilhantes
Sorrateiro vôo da madrugada
Que no escuro da noite
Silenciam sua intensa liberdade


Seu sempre calmo olhar
De imponência e doçura
Sabedoria nata, milenar
Que vem no tempo lapidada

Movimento lento, silente
Internece a quem te olha,
Pássaro gigante
Para além da linha paralela que te sustenta
Sobe o horizonte , feito de ar e poesia
Onde nasce e morre minha inquietude

Entremeio nas dobraduras de papel
É feito o enlace da harmonia
Sobe e desce em meus cabelos
Eleve e leve o meu pensamento.

Para Além de um Sentimento


Na palavra
E no verbo
No tempo que não se vai
No inteiro que não se parte
No afeto que se contrai


A ti, minha emoção dedico
Livre de qualquer formalidade
Presa no meu intenso desejo



E que a mão que toca a outra
Penetrando o tempo e o espaço
Possa também me abraçar
Seus olhos no espelho
E na minha pele gravados



A cada passo incerto a te procurar
Minha alma bem sabe aonde te encontrar
Bem perto, ou bem longe
Em algum lugar
Bem aqui... No meu peito
Escondido na minha lembrança
Corre o meu amor
A ti, para sempre, alcançar

Mulher Aranha




Tal qual aranha, teço
Saio, subo, percorro,
Pendurada em fios, minha alma vejo
Amarrada em voltas
Faço o laço, no abraço

Nos entremeios de mim,
No lampejo
Em todos os fios de minha vida, percorro
Destruo, descarto, enrosco
Desfazendo o feito.

Lanço , jogo e crio
Nas teias do meu caminho
Teço o fio
Teço a trama
Sem drama

Me enredo, e amanheço
Nos meus pés,sinto a seda,
Nos enlaces,
Nos lençóis,
No arremesso.




No sol que abraça


Mesmo que a rosa
Morra em botão
A vida continua...

No sol que me abraça
Na música que enlaça
Para além da vidraça
No muito, ou pouco, que se faça

Lá ela está, a vida, sem medida,
Sem atrasos,
A nos esperar.


No minuto que já morreu
Mesmo com a ausência silente
Dos que amamos um dia
Seguimos ainda
Pelo mesmo, mas todo dia renovado,
Caminho antes percorrido.



Voltas do Tempo


As tranças do meu cabelo
Estão guardadas no armário
Envolvidas em papel de seda
Juntamente com minha infância

Naquelas tardes onde as flores
Exalavam mais o seu perfume
E onde o sol teimava em não dormir
Guardo todas minhas lembranças

Chinelos nos pés
Conversas pueris
Liberdade solta
Paixões febris

Nas voltas do meu tempo
Todo tempo não mais volta
Juro, às vezes, que ele ainda não passou
Por mais que o tenha vigiado
Criança que não soube crescer
Com seus doces mistérios, fez o relógio derreter

Retrato em Preto e Branco


A uma amiga poeta


Contrariando o seu curto recado
Persisto em não te abandonar
Sentada ao meio fio, junto ao sereno
A espera de tudo recomeçar

Insisto no não ter fim
Em não deixar tudo acabar
Escolho o infinito, mudo
O peso, sufocante, da pata de elefante

Desejando mais que uma noite
Quero, de volta, uma manhã a me abraçar
Depois das curvas tênues do rosto
Onde as lágrimas, cansadas, se deixam secar

Ainda seguro o retrato em preto e branco
E vejo o colorido vivo das roupas que vesti
Minha memória, desbotada, mas fiel, não me trai
Vejo todos intactos, ainda, sorrindo, alí...

Alma Cigana


Próximo da grande fogueira
Baila um vulto de mulher
Desfazendo-se das misérias do cotidiano
Na neblina densa de todo mistério
Seduzida pela breve liberdade
De uma alquimia de rara beleza...
Transformando poeira em poesia!...

Pés descalços sobre a terra
Prontos para a próxima partida...
Escolhas temidas e tristes abandonos
Se escondem no rápido movimento de seu corpo.

Sob o olhar da lua em chamas
Todo ritual a fecunda
E os quatro elementos da natureza se fundem
Numa realidade própria
De uma alma cigana.

Faíscas


Pela imensidão azul

A que me proponho

Só uma certeza é constante

Meus muitos brilhos

Pela vida diária ofuscados

Deixam faíscas de rastro

Para que eu mesma

Num adiantado dia

Venha com fome a procurá-los.