Ao Entardecer



A manhã rompeu ,
arrancando as flores que nasceram ontem
Tão frescas, e tão maduras
anunciando o fim de primavera

O céu ainda buscava o seu perfume,
e na fotografia, sua imagem inerte
a despertar um sol amanhecido

Olhando seus sonhos de frente,
Jamais se perdeu de vista...
Pois que, ao escutar suas próprias vozes
Inventou sua própria felicidade...

E assim,
Se deixando levar pelo vento fresco,
sua vida entardeceu...

O Vento



Minha alma pinta
em grandes murais coloridos
Imagens que o tempo
esqueceu dentro de mim

Rodopia, por longas horas, diante do fogo
Em cirandas, na qual cada ardente figura
E cada brasa desprendida
Me recordam horas felizes e plenas.

O vento que sopra em meu rosto,
não se cansa de me trazer metáforas...

A Tradução do Silêncio


Foto: René Magritte

Guiada por uma estrela
Na noite incandescente
Cores, aromas e sensações
Trazidas por imagens inconscientes

Não somos mais os mesmos
Somos um pouco mais
No minuto atrasado
Do tempo que chega

A lógica sem sentido
De velhas pulsações
Levitando sobre a página do livro aberto
à deriva...
Na torrente de emoções.

Estou no que digo, mas ,
Principalmente no que deixo de dizer
Estou no hiato
Na hiância
Nos intervalos
Sobre a ponte entre duas margens inexistentes.

O Tudo e o Nada
Na solidão dos mosteiros
Na tradução do silêncio.

Sobre o Amor

Foto: O Beijo , Gustav Klint


Quando toquei
E inutilmente esperei resposta,
Errei.

Quando abracei
E inutilmente esperei retorno,
Acordei.

O amor é um eco da própria voz
no coração do outro.

Quando é possível ouví-lo
Fascina
Faz - sina...

Amar, verbo intransitivo,
Bem disse o poeta.
O amor nasce da sua própria fonte
e deságua sobre aqueles que têm sede.

Refletido


Algumas palavras me vestem
Outras me desnudam...

Alguns abraços me retêm
Outros me libertam...

Sem sentido
Sem ter sido
Sem ser, fito
Refletido

O Som do Silêncio




Olhando as páginas do livro aberto
Escuto o silêncio ,
O silêncio me escuta.

O silêncio grita vozes no escuro
O silêncio grita ausências...

Nas entrelinhas das palavras
Nas sombras que cada luz cria
Entre o inspirar e o expirar
o som do silêncio
a ensurdecer todo o sentir

No silêncio
O tempo deixa-se mostrar
Sem segredos, sem mistérios, sem disfarces...


A Pérola e o Oceano



Um colar de pérolas se desfez

Várias delas se espalharam

Sabendo, cada qual , o seu destino

Correndo apressadas para o fundo do oceano

Feito um labirinto percorrido e desvendado

Todo o mar, ansioso, as aguardava

Como amantes distantes que não se vêem

Apenas sonham um com o outro

E no reencontro tardio,

Soluçam felicidade...

Primeiros Passos



Vincent Van Gogh - First Steps

Sobre a ponte amarela
Descansa meus sonhos
Nos primeiros passos
Os mais secretos desejos

Perto ou longe
Na terra a se arar
Sementes já brotam
Manifestando a ânsia de viver

Meus versos tão pessoais nascem aqui
No solo da vida da qual me inseri
Minhas palavras
São os rastros que deixo

Delas partem o sentimento puro
Delas nascem o giro do mundo

No sol que me habita
No céu que me amplia
No calor que me alimenta
No afeto que me sustenta




Pés Descalços



Nada oculta-se aos olhos de quem sabe
O saber te leva mais longe
Do que seus próprios pés.
Pois, o que encanta,
E no encontro,
O sábio e o caminhante andam juntos.

Quando os pés duvidam
O saber suporta
Quando os pés duvidam
Abre-se a porta:
Do saber de si
Do saber sobre o outro

Sobre a ponte que me conduz mais além
Pisando o asfalto da decisão
Do poder de escolha
De ir e voltar ,
quando assim desejar,
Apóio meus pés descalços,
Sem me deixar parar.

Construção



Sou muito mais do que o antes
E menos ainda do que o depois
Sou o que já se forma
O que já se transforma
Sem formas
Sou o que soa
Sou o que se reforma
Sou Pessoa

Da palavra que nasce
Com o próprio jeito
Inovando sempre a cópia
Sou sujeito

Sujeita a tempestades
Sujeita a calmarias
Ora sou inteira
Ora sou metades

Singular ou plural
Às vezes sou o verbo
O que conjuga
O que consente
O que há, dentro ou fora
Passado e presente
Sou o que sente.

Clarice



Sempre amei Clarice
Desde o primeiro momento em que a vi
Sua foto estampada num livro de literatura juvenil
Onde fomos apresentadas

Seu olhar lânguido me conquistou
Suas palavras vieram calar as minhas, por momentos
Onde , como num reflexo no espelho,
Falavam por mim

Descobri que muita gente se cala ao ouví-la
Pois, seu semblante nos emudece
Nos entorpece

Aqui, depois, de muito tempo passado,
Com a poesia que agora me faz falar
Cada vez mais perto de um Coração Selvagem
Utilizando as palavras, talvez as mesmas,
Relendo os sentimentos que brotam de cada texto seu.

Toda claridade é pouca perto de Clarice
Toda luminosidade que a contempla
Cega muitos olhos aflitos...

Para compreendê-la, enfim,
aprendendo a viver
Bastam apenas perguntas
Sem nenhuma ínfima resposta




Luz e Sombra


Foto: La Promesse - Renê Magritte

Na claridade vejo meus poros
Na sombra, minhas ilusões
Figura e fundo...
Casca e Miolo...

Na luz vejo meus olhos
No escuro, meus fantasmas
Sem me distorcer em vultos
Enxergo melhor em luzes apagadas

Na solidão, o espelho é visível
Repentina, toda claridade me cega
O ouro em pó se derramou
Percorrendo os vãos da escada
Quem sobe, sem medos,
Enfrentando seu próprio breu
Reluz, cintilante, adentro madrugada.

Libélula



Junto à porta que dá passagem ao passado
Encontrei-te esperando por mim
Nem tão lá,
Nem tão aqui,
Mas, na ausência implícita

Nos cortes inesperados,
Na liberdade abraçada
Nos entrelaços da vida

Na fonte que nos oferece água limpa
Está a esperança de dias sem saudades
Onde para o amor
Não existem dores

E na liberta sensação do encontro
Deixar-se embalar por ventos interiores
Devagar sem destino
Em terras jamais vistas

Mansidão



Quando as vozes se calam
Quando a luz externa se apaga
Ouço a música do silêncio

Posso tocar o sol que na noite existe
Posso ouvir o ruído de uma flor que se abre

Não se vendem ilusões
Elas se criam como raízes
Dentro de nós

Livre somos para escolher:
Adormecer ou
Acordar...

Diante do espelho ninguém é normal e belo
As aparências entorpecem todos os sentidos

Juntos somos, ainda , sozinhos
Pois, cada dedo da mesma mão,
sempre é diferente dos demais

Cada poro da pele esconde
Diferentes estórias
No trânsito de imagens
Que chegam e partem
Em cada memória.


No Caminho

Em terra de horizontes largos
Sinto a vida, em mim, ressuscitar
Incansável, o sol salta no céu,
Escondendo sua timidez
Sufocando estrelas...
Escolhendo sempre o brilho e o reviver
E para quem, tudo é novo, sempre

Andar é difícil
Amar é obscuro
Mas vendo a lua deserta
Que ilumina as ruas, incerta
Meus passos seguem adiante

E fica como uma poesia sem fim
O caminho que não se encerra
Sem sentidos...
Sem rimas...
Segue apenas...
No ar que se inspira
Inundado de livres sentimentos
Colhendo as flores enquanto ainda estão belas




Entre as Margens

Foto: Rio Velho por Nelson Afonso

Gosto do silêncio
Porque ouço minhas próprias vozes

Gosto da escuridão
Porque nela posso ver meus próprios fantasmas

Gosto do Hiato
Onde surgem minhas próprias fantasias

Gosto de paredes brancas
Onde projeto o meu próprio filme

É no silêncio
No Escuro
No Hiato
Onde nasço
Onde surjo
Onde existo

Porque são entre as margens que os rios correm
São entre os parênteses que reside o significado
São entre as montanhas que existem os ecos
São entre os medos que sobrevivem os sonhos



Singular


Cada caminho, por vezes, parece solitário,
Visto que cada caminho é UM
É estreito, pois somente cabe um passo,
De cada vez...

A solidão necessária do existir
A solidão do ser único
Resnascer a cada instante
E saber-se singular

A dor de existir-se
De saber-se
De ser criança e adulto em um só ser
Aproximar a palavra ao pensamento,
Aproximar a escrita ao sentir

Um caminho de um só
Ser só
Só ser
Como a flor não pode esconder sua cor
Nem o sol esconder seu brilho


Varanda

Moça na Janela - Salvador Dalí


Debruçada sobre a pedra
Que sustenta a imensa varanda
Vejo nuvens de lembranças
Onde ao amanhecer
Formam a densa neblina

Paisagens se vão
Carregadas pelos ventos fortes
Que o tempo nos impõe...
Corredores de imagens
Que vida afora
Se formam como quadros na parede

Folhas desgarradas formam outras árvores
Reaproveitando tudo
O que, antes, já foi criado

Depois da ventania
Encontro sua mão
E o que fica a partir de então,
É o mistério alegre e triste
De quem chega e quem parte.








Girassol



De repente gira o sol
Levando-me junto, mundo afora
O rosto virado para a luz
Contempla a cor e o calor
Onde alegrias perfuram o tempo


Giram as vidas sem saber
Do infortúnio ou da felicidade
No espaço curto de poder
Controlar algum compasso

Giram em torno de mim
A margem de qualquer contratempo
Coragens que perseguem o fim
Em suas destemidas voltas

Rodopia em busca do ouro
Em linda dança dourada afora
Não deixe, nunca, os sonhos partirem
Euforia desenvolta
Companheira do agora

Você



Aos Namorados

Existem pessoas
Que de tanto amadas
Ficam tatuadas em nosso peito

Existem saudades
Que de tantas vontades
Ficam, para sempre,
Derramadas em nosso leito

Existem sentimentos
Que de tanto vividos e absorvidos
Ficam gravados como sinal em nossa pele

Existe Você
Que de tão linda presença
Emoldura a minha história

E bem antes do amanhecer
Sua sombra, como um sol que habita
De tão iluminada
Já me aquece.

Gôsto de Mel



Há de ouvir
O incessável cantos de pássaros
Que nunca voam sobre o mesmo campo
Eternizados no céu,
Como em um quadro de molduras douradas.

Há de ver
Por todo caminho,
Pétalas marfins espalhadas
Onde, por todas a manhãs, com fascínio, caminho.

Pela fresca estação, todo o encanto fulgaz me seduz
Ao dia, há cores, que pintam, sem cerimônia, minha tez
À noite, só os sonhos, com gôsto de mel, posso ter

Fugitivos


Seus contornos me rodeiam
Num espécie de raro torpor
Jorram palavras não ditas
Desejando a frase quase maldita

Em ti, com tonturas, encontro
Algo similar que temia perder
Te encontro, sem nitidez, antes da minha partida
Sem perceber...

E agora, o que fazer?
Se antes do claro amanhecer
Um amor, bêbado, nos flagrou?

Lá fora, a vida aflita devora
Cada pedaço perdido do desvario
Ofegante respiração entrecortada...
Lembranças, bruscas, fragmentadas...

Uma mera coincidência de amar
No espaço, num instante de olhar
Juntos, medo de perder...
Separados, medo de encontrar...

Delicata



Contesto até o fim, entusiasmada
Um dia de sol pelo menos
Em uma triste semana nublada

Diante das calçadas nuas a correr
Pernas trêmulas a percorrer
O mesmo caminho que um dia já fiz

Se vejo um botão de rosa a sorrir
Me ilumino toda ao descobrir
Que também eu posso desabrochar

Sortes me esperam na vanguarda
Um anel de pedra azul na mão
E um amor de suspiros no portão

Lua Camafeu


Foto: Sara Bastos

De lua fez-se branca
Nos contornos daquele céu
Chamei-lhe pelo nome
Mas de que nome chamaria?
Se as transformações bruscas são feitas
Ao longo de uma breve vida?

Nas altas horas da noite
Ela, enfim, se opusera à escuridão
Se destacando pela luz refletida
Em seu rosto de camafeu

Contos de uma imagem sortida
Aonde são guardados
Singulares efeitos de linguagem
És uma moça?
Ou uma criança?
Tamanha fascinação que exala
Em seus movimentos intensos

Em sua memória, porém,
Existe o que a define
Lembranças e vultos afins
Chegadas e partidas sem fins
Vivências de sãs verdades
Remotas possibilidades de encontros
Juntos de cada adeus.



Contos de Fada


Foto: Sara Bastos

Como em contos de fada
Reunidos todos num só livro
Recolhi toda pura fantasia
e enfeitei o meu dia

Bem singelo há de ficar,
Sem roteiros, sem destinos
Em páginas sem linhas
Como se as linhas só pudessem existir
Na palma de cada mão

E em cada traço
Se pusesse todos os encantos,
Sem dó, nem prantos
Semeando e colhendo ao mesmo tempo
Sem precisar esperar


E o tempo...
Sem se medir
Não precisaria de relógios
Nada de pontualidades e atrasos
A cada passo dado,
Somente e apenas : o existir.

Sonho, logo existo.

O Portal



Enquanto vivo, teço o meu tempo
Utilizando a linguagem dos sonhos
Cada qual com seu feitio
Uns de âmbar, perfume de sândalo
Outros com cores densas, definidas

No desenrolar das palavras
Vão se formando atos em minha mão
E sentimentos que distâncias não destroem
Afetos que afetam...

No ar que se respira
Tira-se a inspiração de cada momento
E cada instante que chega
É o sumo de impressões que agora tenho

Há os que preferem o previsível
De onde as emoções são calmas e límpidas
E a morna água aquece os pés

Há o infinito, aonde não podemos ver
Chama voluptuosa que arde dentro de nós
Onde os momentos eternos habitam
E que de nascente poesia nos conduz






Um Pouco de Tudo


Quadro : Mesa Posta - Matisse

Somos sempre uma mistura de tudo
Mistura de raças
Mistura de cores
Mistura do que é mais sagrado
Ao mais profano...
Temperos doces junto aos amargos
Num tempo que transcorre sem volta,
Entretanto, com muita pressa...

Por tanto vivido
Por pranto sofrido
Por quanto sentido
Somos a resposta ao tempo
E a soma de tudo

Caminhantes errantes
Sem rumo e sem destinos
Sem saber o verdadeiro caminho
Vamos todos seguindo

Se daqui ou se dalí
Percebendo novas sensações
Despertando-se em novos corações
Desafiando e desatando os nós





Espera


Junto a parede ela repousa,
Sonhos de uma estranha sensação

Corredores, vãos e uma luz vinda da janela
Deixando-a num constante profusão

Com ímpeto seu corpo atravessa
Com determinação a arremessa
Pelo inquietante e branco silêncio
As flores vivas estão cá dentro...
Na pequena sala de espera

Abri a porta para um imenso jardim
Com o desejo de semear e colher
Ah! Como é grandiosa a responsabilidade
De fazer todo o campo florescer!

Em cada olhar, o infinito



Vejo o sol despontando nos seus olhos
Duas contas de cristais a me cegar
Com a luz que se reflete em velhas canções
Em doces instantes que transbordam afeições


O sentimento nosso de cada dia
Mergulhado em pequenas porções
De cada olhar, o mais bonito
De todo o amor, o mais polido


E o tempo que me transpassa
Alcança com suas mãos trêmulas
Em cada pequeno gesto, o infinito.

Varais de Lembranças



Pendurei minhas lembranças no varal
Resolvi que delas nada mais posso tirar
Delas ninguém, sequer, saberá
Se as retiro, sem querer, ainda úmidas
Em nenhum armário posso guardar

Por isto, deixo-as ao sol encandecente
Adormecidas em seus longos braços
Secando todas as mágoas e mazelas
Como folhas secas, e em estilhaços

Frescas e muito mais leves
Se tornam as lembranças
Que ao sol, adormecidas, secaram
Aonde os ventos se debruçaram
Perfumando sua pele há muito enrugada

Seu destino, então, já previsto
Se põe em passos largos
Ir de encontro, procurando um lugar
Onde possam, enfim, descansar
Junto a outros sentimentos guardados.

Toque de Lavanda


Longe, bem longe da infância
Há um lugar onde caminhos nos seduzem
Bem perto de uma certa sabedoria
Onde apenas sentimentos existem

No porto onde se prediz o futuro
Juntos todos os encontros são felizes
Na sempre condição de ser única
Centrada no meio da multidão

Como um pétala solta da flor
Voando por terras nunca vistas
Numa ânsia de ir mais longe
Deixando rastros num caminho sem volta

E no ar...
Um suave perfume de lavanda
Indo além, onde meus olhos não conseguem ver
No infinito de cor lilás
Onde me deixo transcender

Cheiro de Alecrim



Já sonhei várias vidas
Também vivi muitos sonhos
E com certeza concisa
Concluo que,
Como diz a bela música
"Viver é melhor que sonhar"

Nos sonhos, as árvores são azuis
E se misturam com o céu
Perto dos pássaros que dizem segredos
Longe das águas que não mostram imagens

E esse cheiro festivo do alecrim
Tira-me do adormecimento em que me encontro
As palavras se calam
Pois, a vida e o silêncio se confundem...

E , agora, já desperta
Onde os sonhos e a vida se fundem
Posso compreender melhor
O mistério contido em todo voar.

Alma Cigana


Próximo da grande fogueira
Baila um vulto de mulher
Desfazendo-se das misérias do cotidiano
Na neblina densa de todo mistério
Seduzida pela breve liberdade
De uma alquimia de rara beleza...
Transformando poeira em poesia!...

Pés descalços sobre a terra
Prontos para a próxima partida...
Escolhas temidas e tristes abandonos
Se escondem no rápido movimento de seu corpo.

Sob o olhar da lua em chamas
Todo ritual a fecunda
E os quatro elementos da natureza se fundem
Numa realidade própria
De uma alma cigana.

A Menina e o Tempo


Lá aonde se espera a vida
De onde as feridas são indolores
A menina aprisionada no tempo
Faz soprar, nos céus, os ventos da mudança

Enquanto as árvores não crescem
E ainda pulsa a cor da esperança
Tenha, ao toque das mãos, ainda
A maciez dos dias amanhecidos

Quando as crianças choram
Alguém as olha por detrás das nuvens
Protegendo-as das lágrimas que deixam marcas
Que são logo transformadas em chuva

E que de chuva encharca
A terra que ainda não foi plantada
Brotam, mesmo que silentes,
Nos olhos de quem ainda não cresceu
Ao viver, se desejando ou sentindo
O sol que ainda vai nascer

Rito de Passagem


Foto: René Magritte

Vai infância,
Em toda sua ilusória completude
Deixa-se ir com o tempo
Na quietude das tardes
Nas vozes dos antigos amigos
Nos brinquedos deixados
Na mão que te orienta a crescer

Vai tempo de festa
Onde a adolescência te chama
Onde o primeiro amor te espera
Na claridade dos lindos dias
Na páginas do caderno da escola
Rabiscos e afirmações
De um adulto que deseja nascer

Vai e não olha para trás
Relembra apenas o que se foi,
No passado que te constitui
Nos momentos que te formaram
No que o sentimento hoje flui

Nada mais te prende
A não ser as remotas lembranças
E este olhar para o que ainda não existe
Um olhar para o que está no futuro
Mas , que nem com todo esforço e desejo
Consegues ver...

Vai, mas, não apresses o passo
Desfrute do que te cerca,
Do que te faz crescer,
Do que te emociona
No que a vida te oferecer.

A Tradução de um Silêncio


Foto: René Magritte


Guiada por uma estrela
Na noite incandescente
Cores, aromas e sensações
Trazidas por imagens inconscientes

Não somos mais os mesmos
Somos um pouco mais
No minuto atrasado
Do tempo que chega

A lógica sem sentido
De velhas pulsações
Levitando sobre a página do livro aberto
à deriva...
Na torrente de emoções.

Estou no que digo, mas ,
Principalmente no que deixo de dizer
Estou no hiato
Na hiância
Nos intervalos
Sobre a ponte entre duas margens inexistentes.

O Tudo e o Nada
Na solidão dos mosteiros
Na tradução do silêncio.


Decidida


Mesmo sem ter aonde ir

Ela partiu...

Da boca, engolidas palavras

Formavam um Adeus

Mesmo sem ter o que vestir

Se despiu de velhos preconceitos

Mesmo sem ter o que procurar

Saiu, decidida, e em busca

Sem entender de notas musicais


Compôs e dançou sua linda e doce canção

Decidiu não mais parar...

E na longa estrada

Se pôs a andar, e andar

Pois que, quem nunca se perde

Jamais se encontra.

Colar de Pérolas


Um arredio colar de pérolas se desfez

Várias delas se espalharam

Sabendo, cada qual , o seu destino

Correndo apressadas para o fundo do oceano

Feito um labirinto percorrido e desvendado

Todo o mar, ansioso, as aguardava

Como amantes distantes que não se vêem,

Respirando o amor que deles exalam

Apenas sonham um com o outro

E no reencontro tardio

Soluçam felicidade...

Sensível



Hoje, percebo quem fui
Mesmo que certezas me faltem
A vida oferece a cada instante
Uma nova e rápida estrela cadente
Para que novos desejos sejam desejados
e logo transformados em doce esperança

Existe, dentro de mim
Um lugar silente e resguardado
De todo barulho e bagunça deste mundo
Lá , eu flutuo na música
E tenho a suavidade de uma poesia

Vou correndo encontrar
Assim que as portas se abrem
A força que habita em toda sensibilidade
Pois, engana-se que apenas olha
E em verdade não vê:
Ser sensível , nada em absoluto,
Significa ser frágil.

Alma Mineira



Minha alma é mineira
Farejadora de ouro e poesia
Aprendiz de luz e pérolas
Garimpeira de rubis, esmeraldas e jades
Num brilho de ofuscar
Nas Minas do sempre ser
Tem sotaque, tem mesmices
Tem cheiro de pão fresco
e andar nas ruas de barro, sempre abrindo porteiras
Minha alma é mineira
É simples, é ritmada
como o cantar das violas
É o escultor e a escultura
É o artista e o seu feito
É o pintor e sua pintura
Minha alma é mineira
É a obra inacabada....

Feliz Tempo Novo!


Observo, encostada na soleira da porta
Toda a vida apressada passar
Lá vejo cheiros e pessoas
Amigos, amores, lembranças
Todos passam e vão-se embora
É necessário ir!
O que se há de fazer?

Junto deles passam os anos
Inquietudes de adolescente
Dúvidas da juventude
Algodão doce, irresponsabilidade
Passam apressados sem saber

A sabedoria está em aceitar o fim
Talvez seja a mais árdua e pesada...
Mas depois do fim
Um novo começo, sempre!

Lá vem a brisa de um novo tempo
Despontando no horizonte
Já posso sentir seu frescor
Tocando meus cabelos

Junto a mim somente o agora
Abro os braços e deixo escapar
Livre como um pássaro, todo o passado, outrora
Vão-se sonhos abandonados,
Objetos quebrados, papéis rasgados
Nada mais é preciso ficar

Tudo passa e vai embora
O que se há de fazer?
Assisto a tudo e posso crer
O Tempo sabe muito mais do que todos nós
Para que desobedecer?
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