Construção


Sou  mais do que o antes
E menos ainda do que o depois
Sou o que já se forma
O que já se transforma
Sem formas
Sou o que soa
Sou o que se reforma
Sou Pessoa

Da palavra que nasce
Com o próprio jeito
Inovando sempre a cópia
Sou sujeito

Sujeita a tempestades
Sujeita a calmarias
Ora sou inteira
Ora sou metades

Singular ou plural
As vezes sou o verbo
O que consente
O que há, dentro ou fora
Sou o que sente.

O Sol que me Abraça

 
 
Mesmo que a rosa
Morra em botão
A vida continua...

No sol que me abraça
Na música que enlaça
Para além da vidraça
No muito, ou pouco, que se faça

Lá ela está, a vida, sem medida,
Sem atrasos,
A nos esperar.


No minuto que já morreu
Mesmo com a ausência silente
Dos que amamos um dia
Seguimos ainda
Pelo mesmo, mas todo dia renovado,
Caminho antes percorrido.

A Pérola e o Oceano


 
 
Um colar de pérolas se desfez

Várias delas se espalharam

Sabendo, cada qual , o seu destino

Correndo apressadas para o fundo do oceano

Feito um labirinto percorrido e desvendado

Todo o mar, ansioso, as aguardava

Como amantes distantes que não se vêem

Apenas sonham um com o outro

E no reencontro tardio,

Soluçam felicidade...

Medieval

                                             

  Em pálidos momentos
Correm como antes
Os tempos vindouros
Castanhos e tristonhos
Nas tardes afins.

Sem lampejo,
Sem audácia,
Correm entre o fogo
Das chamas de um breve beijo
Nas lembranças de mim.

E o cálice embriagado espreita,
repousa a turva bebida
que ontem cansada abandonei.

Uma brisa na clara cortina
Esvoaça a densa neblina
De um dia sem fim.

Primavera

 
É chegada a hora
Onde a poda se faz necessária
De galhos que ontem floresceram
E Hoje, maduros, se deixarem morrer...

É chegado o tempo
Da pequenina semente germinada
Em épocas passadas, solta e abandonada
Romper a terra, aflita, em busca do sol...

De mãos, outrora, contidas e atadas
Em busca de saciar a fome
Prepararem, seguras, a próxima refeição...

Pois que, a primavera já nos surpreende
Com um corte silente e profundo
Em cada esperançoso coração.

À procura de novos sonhos,
Aproxima-se a furiosa correnteza
Que lava todas as angústias enternecidas
E faz nascer uma flor em cada dedo da mão.

Voltas do Tempo



As tranças do meu cabelo
Estão guardadas no armário
Envolvidas em papel de seda
Juntamente com minha infância

Naquelas tardes onde as flores
Exalavam mais o seu perfume
E onde o sol teimava em não dormir
Guardo todas minhas lembranças

Chinelos nos pés
Conversas pueris
Liberdade extrema
Paixões febris

Nas voltas do meu tempo
Todo tempo volta a cada  instante
Por vezes,  ele se  eterniza
Onde  posso , de  longe, ver
A criança que não soube crescer
Com seus encantos e mistérios,
Fez o  ponteiro  do  relógio derreter

Varanda

Moça na Janela- Salvador Dali 
 
Debruçada sobre a pedra
Que sustenta a imensa varanda
Vejo nuvens de lembranças
Onde ao amanhecer
Formam a densa neblina

Paisagens se vão
Carregadas pelos ventos fortes
Que o tempo nos impõe...
Corredores de imagens
Que vida afora
Se formam como quadros na parede

Folhas desgarradas formam outras árvores
Reaproveitando tudo
O que, antes, já foi criado

Depois da ventania
Encontro sua mão
E o que fica a partir de então,
É o mistério alegre e triste
De quem chega e de quem parte.

Pássaro

 
 
Sob a luz da janela
Suas asas parecem mais coloridas e brilhantes
Sorrateiro vôo da madrugada
Que no escuro da noite
Silenciam sua intensa liberdade


Seu sempre calmo olhar
De imponência e doçura
Sabedoria nata, milenar
Que vem no tempo lapidada

Movimento lento, silente
Internece a quem te olha,
Pássaro gigante
Para além da linha paralela que te sustenta
Sobe o horizonte , feito de ar e poesia
Onde nasce e morre minha inquietude

Entremeio nas dobraduras de papel
É feito o enlace da harmonia
Sobe e desce em meus cabelos
Eleve e leve o meu pensamento.

Entre as Margens




Gosto do silêncio
Porque nele ouço minhas próprias vozes

Gosto da escuridão
Porque nela posso ver meus próprios fantasmas

Gosto do Hiato
Onde surgem minhas próprias fantasias

Gosto de paredes brancas
Onde projeto o meu próprio filme

É no silêncio
No Escuro
No Hiato
Onde nasço
Onde surjo
Onde existo

Porque são entre as margens que os rios correm
São entre os parênteses que reside o significado
São entre as montanhas que existem os ecos
São entre os medos que sobrevivem os sonhos

Singular


  Um caminho parece solitário,
Visto que cada caminho é único
É estreito,
  Um passo,
De cada vez...

A solidão necessária do existir
A solidão de ser
Resnascer a cada instante
E saber-se singular

A dor de existir-se
De saber-se
 Crescer , sem deixar de ser criança
Aproximar a palavra ao pensamento,
Aproximar a escrita ao sentir

Um caminho de um só
Ser só
Só ser
Como a flor não pode esconder sua cor
Nem o sol esconder seu brilho

Refletido

Algumas palavras me vestem
Outras me desnudam...

Alguns abraços me retêm
Outros me libertam...

Sem sentido
Sem ter sido
Sem ser  sinto
Refletido

Desafio

Chamada a desafiar seus medos
Dançou à beira do abismo...
Dormiu sobre os trilhos do trem...
Ousou amar novamente...

Correndo na contramão do seu destino
Aceitou a impontualidade de ser!
E após longa batalha,
Respirou a suave plenitude
 Encharcando-se da sublime alegria de viver!

Todas as Cores



Dentro de mim
Amanhecem todas as cores;
Se me apaixono, vermelho
Se me alegro, amarelo
Se sou sentimentos, lilás
Se me abandono, cinza
Se me deixo morrer, preto
Se me calo, branco
Todas as matizes
Num só corpo
Um só corpo para todas as cores.

Lírios Florescendo

                                                        

 Para  Flávio


De  um  encontro  feliz
O que  restou de  nós
Foram lírios florescendo.

Ao  olhar  o  céu
Ver  que  muitas  nuvens  ainda  passariam
E  o  sol  voltaria a  brilhar  por muitos  dias
De  que o fim  poderia  ser  outro recomeço.

Porque  para  se  viver
Basta  respirar e  acreditar,
Como  um  filho  que  nasce,
E  nos  faz renascer na  mesma  vida.

Existem  flores que  nunca  morrem.
Se  no  jardim da  verdade  são  semeadas
Perfumam  o  nosso  ar  eternamente.

A Menina e o Tempo



Lá aonde se espera a vida
Aonde as feridas são indolores
A menina aprisionada no tempo
Faz soprar, nos céus, os ventos da mudança

Enquanto as árvores não crescem
E ainda pulsa a cor da esperança
Tenha, ao toque das mãos
A maciez dos dias amanhecidos

Quando as crianças choram
Alguém as olha por detrás das nuvens
Protegendo-as das lágrimas que deixam marcas
Que são logo transformadas em chuva

E que de chuva encharca
A terra que ainda não foi plantada
Brotam, mesmo que silentes,
Nos olhos de quem ainda não cresceu
Ao viver, se desejando ou sentindo
O sol que ainda vai brilhar

Quebra-cabeça





Sem pressa,
Fico a juntar as peças do quebra-cabeça
Peças grandes, coloridas
Peças de luto, delicadas
Pequenos fragmentos a formarem
A imagem dedicada ao ontem.

Pedaços de um brilho singular
A representar pessoas,
Situações vividas
Emoções sentidas
Cada qual com sua beleza, seu feitio
Formando quadros nos seus encaixes
E uma imagem que se parece comigo
Olhada, ao longe...

Com Licença para Viver



Enquanto desfaço-me de minhas certezas
Enquanto vou aprendendo a duvidar de meu destino
E apontar rumos incertos
Tal qual uma bailarina despe-se de seus véus
Vou lapidando minha arte de viver

O cheiro da poeira a se levantar
O som da porta a se abrir
Ainda fazem meu coração estremecer
Sinal que a vida habita em mim

Sem pedir licença
A vida se faz e refaz
E ao se olhar no velho espelho
Vê refletida sua inquietação
E faz do tempo seu grande amigo.

Luz e Sombra



Na claridade, vejo meus poros
Na sombra, minhas ilusões
Figura e fundo...
Casca e Miolo...

Na luz vejo meus olhos
No escuro, meus fantasmas
Sem me distorcer em vultos
Enxergo melhor em luzes apagadas

Na solidão, o espelho é visível
Repentina, toda claridade me cega
O ouro em pó se derramou
Percorrendo os vãos da escada
Quem sobe, sem medos,
Enfrentando seu próprio breu
Reluz, cintilante, adentro madrugada.

Varais de Lembranças




Pendurei minhas lembranças no varal

Resolvi que delas nada mais posso tirar
Delas ninguém, sequer, saberá
Se as retiro, sem querer, ainda úmidas
Em nenhum armário posso guardar

Por isto, deixo o sol encandecente
A envolver em seus longos braços
Secando todas as mágoas e mazelas
Como folhas secas em estilhaços

Frescas e muito mais leves
Se tornam as lembranças
Que ao sol, adormecidas, secaram
Onde os ventos se debruçaram
Perfumando sua pele já enrugada

Seu destino, então, já previsto
Se põe em passos largos
Ir de encontro, procurando um lugar
Onde possam, enfim, descansar
Junto a outros sentimentos guardados.

Ilusões


Quisera eu ter menos ilusões,
Mas elas,
Incessantemente,
Me abraçam...
A criança que existe em mim
Está fadada
A jamais crescer.

Infinito



Ao amigo, grande poeta, grande pessoa



E da Tua poesia veio o silêncio...
E das tuas mãos nasceu o espaço em branco...
Da tua afetiva presença surgiu o imenso vazio...

Vida livre na Era de aquário
Assim te vejo, Coração intenso
Há braços* a te esperar...
Grandes pessoas não cabem neste mundo
Precisam sempre ir além...
Infinito


*"Há braços" , uma expressão do querido amigo, ao se despedir...
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